P.E.C. Nº 367: I beg your Paddon?...


O tempo corre rápido. 

Passa pelas nossas vidas em verdadeira toada de flat out

Foi em 2010. 

Parece ter sido ontem. 

seis anos Armindo Araújo e Miguel Ramalho apresentaram-se no Rali de Portugal empunhando o merecido estatuto de campeões do mundo de Ralis no agrupamento de carros de produção. 

Apostados na revalidação do título (que felizmente conseguiriam no final do ano) e correndo em casa, a nossa prova (vencida anteriormente por ambos em três ocasiões: 2003; 2004; 2006) ensaiava-se para a dupla nacional como o momento por excelência de total entronização perante o seu público. 

No contexto do P-WRC, a consistência de três pódios averbados nos três primeiros Ralis do ano (Suécia, México e Jordânia) davam margem de erro e um certo desafogo pontual a Araújo e Ramalho para, sem pressão de maior, poderem proporcionar algum espetáculo aos adeptos nacionais, até porque no papel de verdadeiros rivais, a havê-los, estavam apenas Bernardo Sousa e Nuno Rodrigues da Silva (competindo com o Ford Fiesta S2000) na luta pela sempre prestigiante classificação de melhores portugueses no final do evento. 

Competindo também com a, à altura, mais recente evolução dos Mitsubishi Lancer (a Evo X), estavam inscritos, é certo, uma série de desconhecidos integrados no programa Pirelli Star Driver, no qual a construtora transalpina de pneumáticos apostava para fazer despoletar novos jovens valores no WRC

Mas tratava-se de jovens (mais concretamente: cinco) com reduzida experiência, mais ou menos desconhecidos do grande público e que vinham a Portugal sem conhecer (ou conhecendo mal) a prova, logo, sem possibilidades de importunar Armindo e Miguel na caminhada que se antevia imparável rumo à vitória no agrupamento de produção dentro da prova portuguesa. 

Sem adversários à vista, a festa estava, portanto, preparada para a consagração da dupla campeã mundial por terras do Algarve e Baixo Alentejo. 

Quando muito, aos adversários do ‘escalão mais baixo’ estaria no máximo reservado o papel de abrilhantarem a celebração. 

Logo após as primeiras classificativas do Rali houve dois desses jovens que, dando azo à irreverência e jogando no campo do adversário, tentaram fazer uma gracinha e medir-se de igual para igual com a dupla campeã do mundo. 

Uns tais de Paddon e Tanak


Dos quais nunca ninguém (ou perto disso…) tinha ouvido falar. 

Pensava-se que aguentariam o clássico ‘quarto de hora’ do futebol, e que o decorrer do jogo (leia-se: Rali) iria naturalmente encarregar-se de fazer a seleção de valores e repor a natural hierarquia de andamentos. 

Porém, os putos pareciam sentir-se confortáveis no papel de outsiders e não desarmavam. 

Não desarmavam, mesmo. 

Para nós, portugueses, a gracinha começava agora, claro, a ter pouca graça. 

O final do primeiro dia de prova deu conta de uma supremacia de Ott Tanak perante Armindo, escorada em 23 segundos. 

Com Paddon afundado na classificação, o estoniano (sobretudo ele…) exibia qualidades acima da média, mas a diferença seria perfeitamente recuperável no dia seguinte, o mais longo e seletivo do evento, no qual o conhecimento dos troços por parte de Araújo e Ramalho seguramente ajudaria a fazer pender o fiel da balança para as hostes nacionais. 

Na primeira passagem por Almodôvar, Vascão e São Brás de Alportel, Ott revelou-se imparável. 

Venceu as três classificativas e dilatou a distância para a dupla portuguesa campeã do mundo. 

Porém, os nossos homens não eram (nunca foram…) de se ficar

A reação surge de imediato com o triunfo na segunda passagem pelos sobreditos troços, ainda assim insuficiente para impedir que o homem oriundo das terras lá do frio concluísse o segundo dia de refregas na frente com 48 generosos segundos de avanço sobre Armindo e Miguel

Começava a ser difícil os olheiros dos Ralis não começarem a prestar forte atenção ao protegido de Markko Martin

não se tratava apenas de irreverência: o puto, ao tempo com 22 anos, tinha forçosamente de ser bastante rápido. 


No primeiro troço (Felizes '1') do último dia do Rali de Portugal, Tanak esmera-se. 

Entra ‘com tudo’

Em pouco mais de vinte e um quilómetros conquista mais vinte e quatro segundos à melhor sobre Araújo e Ramalho

A surpresa parece em definitivo consumada, uma vez que a quatro especiais do fim da prova (uma delas, Superespecial) a margem para em condições normais recuperar é agora pouca, para não dizer nenhuma. 

No entanto, o voluntarismo e a reduzida experiência têm um preço que muitas vezes se paga bem caro na alta-roda dos Ralis, velha e inexorável máxima que se cumpriu em pleno no Rali de Portugal em 2010. 

No troço seguinte (Loulé '1'), o décimo quinto dos dezoito que compunham o evento, quando as circunstâncias impunham já alguma contenção Tanak tem uma ligeira saída de estrada, danifica a suspensão do Mitsubishi e vê-se irremediavelmente fora de prova. 

Paddon também não escapa a problemas na mesma classificativa, o culminar, afinal, de um Rali cheio de contratempos para o neozelandês. 

A partir daqui, a Sentença final da prova quanto à classificação reservada ao agrupamento de produção está já em fase de impressão

Dentro do carro de Armindo e Miguel a contabilidade passa a bater aos pontos a velocidade

Os restantes troços (à exceção da Superespecial final no Estádio do Algarve) são vencidos à classe por Hayden Paddon que, não obstante os azares de que foi alvo e o desconhecimento do terreno encetou uma recuperação que o levaria do quinquagésimo terceiro lugar na classificação geral após oprimeiro dia, até ao vigésimo lugar final no Rali de Portugal disputado há seis anos, sendo o terceiro melhor colocado de entre todos os concorrentes ao volante de carros de grupo ‘N’ (atrás de Armindo Araújo e Miguel Ramalho, que com este triunfo encetavam uma caminha imparável rumo à revalidação do título mundial, e de Pedro Peres e Tiago Ferreira) e o vencedor dentro da competição dos pilotos inscritos no Pirelli Star Driver

Paddon e Tanak, o vencedor do Rali da Argentina em 2016, e o não vencedor, por motivos dignos de um argumento de Hitchcock, do recente Rali da Polónia, integram hoje a nata dos mais rápidos e qualificados pilotos de Rali em todo o planeta. 

Foi da forma que fomos descrevendo ao longo das linhas anteriores, que há meia-dúzia de anos apresentaram ambos credenciais ao mundo do WRC, dando que fazer a um campeão em título, na reencarnação daquele sketch clássico que os Ralis não se cansam de projetar, com o piloto de créditos firmados e estatuto vitorioso a ter de se medir diretamente, ao décimo de segundo, com jovens desejosos de glória e afirmação. 

Antevia-se em 2010 que o homem do hemisfério norte e o homem do hemisfério sul tinham condições para se tornar pilotos de relevo no campeonato do mundo de Ralis (ambos foram campeões nacionais nos respetivos países em 2008 e 2009)

Mas ninguém apostaria uma ficha em como em 2016 seriam vistos, quer um, quer outro, como talvez os mais sólidos nomes, nos próximos anos, a terminar com a supremacia na modalidade de um outro piloto que por sinal e premonitória coincidência também deu enormemente nas vistas no Rali de Portugal desse mesmo ano de 2010... 

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TABELA COMPARATIVA DE TEMPOS REALIZADOS NO 
RALI DE PORTUGAL/2010, TROÇO A TROÇO

Classificativa n.º 1
= Super-Especial – Estádio do Algarve ‘1’ =
2,03 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
2m:20,7s
Hayden Paddon + John Kennard
2m:28,2s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
2m:23,4s
Classificativa n.º 2
= Santa Clara ‘1’ =
22,72 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
15m:35,7s
Hayden Paddon + John Kennard
15m:28,2s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
15m:18,9s
Classificativa n.º 3
= Ourique ‘1’ =
20,21 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
14m:08,7s
Hayden Paddon + John Kennard
14m:18,5s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
14m:14,8s
Classificativa n.º 4
= Silves ‘1’ =
21,36 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
13m:30,7s
Hayden Paddon + John Kennard
13m:44,2s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
13m:20,0s
Classificativa n.º 5
= Santa Clara ‘2’ =
22,72 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
15m:17,8s
Hayden Paddon + John Kennard
15m:24,5s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
15m:16,5s
Classificativa n.º 6
= Ourique ‘2’ =
20,21 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
14m:07,4s
Hayden Paddon + John Kennard
14m:23,0s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
14m:12,3s
Classificativa n.º 7
= Santa Clara ‘2’ =
21,36 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
13m:35,4s
Hayden Paddon + John Kennard
22m:50,8s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
13m:27,2s

Diferenças de tempo no final do primeiro dia de prova

Piloto + Navegador
Tempo realizado
Ott Tanak + Kuldar Sikk
1h:28m:13,1s
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
+ 23,3s
Hayden Paddon + John Kennard
+ 10m:59,2s
Classificativa n.º 8
= Almodôvar ‘1’ =
26,20 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
18m:27,0s
Hayden Paddon + John Kennard
18m:46,0s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
17m:54,3s
Classificativa n.º 9
= Vascão ‘1’ =
25,23 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
18m:08,0s
Hayden Paddon + John Kennard
18m:09,0s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
17m:57,2s
Classificativa n.º 10
= São Brás de Alportel ‘1’ =
16,12 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
12m:44,5s
Hayden Paddon + John Kennard
12m:59,0s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
12m:44,1s
Classificativa n.º 11
= Almodôvar ‘2’ =
26,20 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
18m:11,6s
Hayden Paddon + John Kennard
18m:31,9s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
18m:16,6s
Classificativa n.º 12
= Vascão ‘2’ =
25,23 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
17m:51,9s
Hayden Paddon + John Kennard
18m:12,3s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
18m:01,4s
Classificativa n.º 13
= São Brás de Alportel ‘2’ =
16,12 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
12m:33,0s
Hayden Paddon + John Kennard
12m:56,0s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
12m:37,7s

Diferenças de tempo no final do segundo dia de prova

Piloto + Navegador
Tempo realizado
Ott Tanak + Kuldar Sikk
3h:05m:44,4s
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
+ 48,0s
Hayden Paddon + John Kennard
+ 14m:27,2s
Classificativa n.º 14
= Felizes ‘1’ =
21,28 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
15m:16,8s
Hayden Paddon + John Kennard
15m:16,2s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
14m:52,2s
Classificativa n.º 15
= Loulé ‘1’ =
22,51 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
16m:58,9s
Hayden Paddon + John Kennard
17m:06,1s
Ott Tanak + Kuldar Sikk
Desistiu por despiste nesta classificativa
Classificativa n.º 16
= Felizes ‘2’ =
21,28 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
15m:25,5s
Hayden Paddon + John Kennard
15m:17,4s
Classificativa n.º 17
= Loulé ‘2’ =
22,51 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
17m:21,7s
Hayden Paddon + John Kennard
17m:15,0s
Classificativa n.º 18
= Super-Especial – Estádio do Algarve ‘2’ =
2,03 quilómetros
Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
2m:21,5s
Hayden Paddon + John Kennard
2m:26,0s

Diferenças de tempo no final do terceiro e último dia de prova

Piloto + Navegador
Tempo realizado
Armindo Araújo + Miguel Ramalho
4h:13m:56,8s
Hayden Paddon + John Kennard
+ 13m:36,3s

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AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://rally-mania.blogspot.pt/2011/01/hayden-paddon-tenta-p-wrc-todo-o-custo.html
- https://i.ytimg.com/vi/AeMoBu6jlOQ/hqdefault.jpg
- http://www.lusomotores.com/images/stories/IMAGENS_2008/LUSOMOTORES/GALERIAS/RALI-DE-PORTUGAL-2010-DIA2/80005.jpg

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