P.E.C. Nº 368: Um problema de comunicação...


i)

Há uns dias, a propósito de umas curtas explicações de português que nos foram pedidas por uma criança (seguramente, na sua generosidade, mais convicta que nos próprios quanto à nossa vocação para ensinamentos sobre a língua de Camões…), andámos às voltas com o processo de comunicação.

Revimos, pois, conceitos como o emissor, o recetor, a mensagem, o canal de comunicação, o código, ou o ruído

Por artes do inexplicável, a páginas tantas demos por nós a mentalmente tentar encontrar exemplos de um processo de comunicação incompleto, e veio-nos quase instintivamente à memória o famigerado e polémico Rali de Monchique disputado nos passados dias 11 e 12 de junho. 

A prova, organizada pelo Clube Automóvel do Sul, integrou uma série de competições: Campeonato FPAK de Ralis Sul; Campeonato Nacional de Iniciados de Ralis; Campeonato Nacional de Clássicos de Ralis; Campeonato Nacional de Ralis GT; Taça FPAK de Ralis de Asfalto e DS3 R1 Challenge

Da pequena vila panorâmica sobre o Algarve, chegaram-nos, naquele fim-de-semana, ventos de controvérsia. 

Após a disputa das primeiras duas especiais do evento, e à entrada para a Superespecial que fecharia o primeiro dia de pelejas desportivas, eis que as notícias deram conta, com surpresa, da exclusão sem apelo nem agravo de seis duplas de concorrentes inscritas na prova. 

Sem prejuízo do maior respeito que nos merecem todos quantos integraram a lista de inscritos neste Rali de Monchique, não foram seis duplas quaisquer que se viram impelidas a abandonar o evento. 

Foram ‘apenas’ uma grande fatia dos concorrentes que garantem maior protagonismo dentro do Campeonato de Ralis FPAK (os quatro primeiros da classificação geral de pilotos e navegadores nomomento em que redigimos estas linhas), e os únicos dois pilotos e respetivos copilotos que disputam o Campeonato Nacional de Ralis GT. A saber: Daniel Nunes / Rui Raimundo; Fernando Teotónio / Luís Morgadinho; Luís Mota / Alexandre Ramos; Carlos Fernandes / Valter Cardoso; Adruzilo Lopes / Luís Lisboa e Victor Pascoal / Pedro Alves

Do lado da entidade organizadora sairia, posteriormente, um comunicado explanando a sua visão sobre o tema. 

Alguns dos pilotos/navegadores visados, não deixaram, também, de expressar com clareza a total discordância com a penalização aplicada

Uma boa súmula de tudo o que se passou foi então oportunamente redigida por José António Marques no portal Sportmotores, consultável aqui

Lendo as alegações dadas à estampa por clube organizador e pilotos envolvidos na controvérsia, parece-nos haver argumentos atendíveis de ambos os lados da barricada. 

Não será sequer muito relevante agora, volvido mês e meio sobre o episódio, densificar o que se passou. 

Como não estamos em crer que tanta gente ilustre, alguma dela com dezenas de anos e talvez centenas de Ralis inscritos nos respetivos palmarés, tenha de repente desaprendido de interpretar regulamentos, itinerários e horários nas provas de Rali, a ilação a extrair parece-nos ir de encontro, lá está, à ideia de um problema de comunicação

O CAS (Clube Automóvel do Sul), enquanto emissor da mensagem (informação sobre os horários de saída do reagrupamento, correspondente ao Controlo de Horário de Chegada da S.E., terceira classificativa do evento) invocou que essa matéria foi devidamente publicitada quarenta e dois minutos antes da partida, em sede do Quadro Oficial ao dispor para consulta no secretariado da prova e constante do Anexo II do respetivo roadbook

Já os pilotos, enquanto recetores da mensagem, contra-alegam dizendo que laboraram num equívoco pelo facto da saída do Controlo de Horário de Chegada ser de minuto a minuto, e a partida para a Superespecial, feita cerca de uma centena de metros depois, ser espaçada em três minutos para cada concorrente (o que conduziria a eventuais engarrafamentos no pelotão de inscritos, e por arrasto a incumprimento de horários), além de terem sido impedidos pelas forças de segurança de consultar o Quadro Oficial, pelo facto do secretariado do Rali estar edificado no miolo da Superespecial onde não era permitido pessoas circular

No meio deste emaranhado de argumentos, quem quiser que tire as respetivas conclusões. 

No entanto, como nos parece que se verificou uma certa confusão e a não total percetibilidade da mensagem desde que a mesma saiu do emissor até (não) chegar a alguns dos respetivos recetores, afigura-se-nos, por conseguinte, que teria sido razoável e prudencial permitir que os seis pilotos em questão (e respetivos navegadores) pudessem ter continuado normalmente em prova sem penalizações. 

A aplicação fria dos regulamentos nesta situação fez automaticamente pressupor que houve falhas apenas por parte dos concorrentes, isentando a organização de quaisquer responsabilidades, o que nos parece não ter sido exatamente o caso, atenta a cronologia dos acontecimentos. 

Estamos, em suma, na presença de mais uma daquelas situações, tipicamente portuguesas, em que se regulamenta tudo e mais alguma coisa, deixando pouca margem para se optar por soluções negociadas, muitas vezes preferíveis, sobretudo quando à sanção é manifestamente desproporcionada à gravidade dos comportamentos, às soluções regulamentadas

Foi isso, em linhas gerais, o que ocorreu em Monchique. 

E ao fim ao cabo acabou por ser Luís Lisboa, um dos excluídos do Rali de Monchique e de regresso às lides após treze anos de ausência, quem, numa mera frase e com recurso a poucas palavras, foi lapidar na apreciação a esta controvérsia: faltou bom senso! 

ii)

Aqui chegados, entramos, então, no segundo aspeto do problema. 

À Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting está confiada a incumbência de promover o desporto automóvel no nosso país. 

É essa missão, aliás, que justifica a atribuição à entidade federativa do estatuto de utilidade pública, plasmado em letra de lei. 

Os guardiães da defesa da imagem dos nossos Ralis têm, portanto, como obrigação primeira zelar pelos nossos campeonatos internos, contribuindo para os promover pela positiva dentro de um enquadramento credível e atrativo, projetando-os como um produto apetecível (aliás, estamos em crer, com margem para considerável crescimento) dentro e fora da modalidade. 

Do sopé dos montes da Foia e da Picota, os sinais dados no decurso do Rali de Monchique foram lamentavelmente os contrários. 

Com a exclusão, sem mais, da totalidade dos participantes num campeonato, e dos mais destacados inscritos em um outro, a imagem geral que perpassou, sobretudo para quem está menos ligado aos Ralis, nada tem de positivo. 

Não há volta a dar. 

Quem não conhece com precisão os bastidores deste desporto, na decorrência das trapalhadas verificadas em Monchique poderá ser levado a pensar: 

a) Que as seis duplas de concorrentes, dada a imediata aplicação linear dos regulamentos, tentaram deliberadamente ultrapassar as regras em benefício próprio e, por exclusão de partes, em prejuízo dos demais adversários, o que obviamente não é verdade; 

b) Eventualmente, que os mais destacados pilotos e navegadores participantes em campeonatos com dimensão nacional não conhecem as linhas mestras normativas das competições em que militam, leitura que é, claro, completamente desfasada da realidade; 

c) No limite, não obstante os avultados custos de participação na modalidade, que grassa um amadorismo considerável em alguns dos mais importantes campeonatos de Ralis em Portugal, o que é um golpe profundo na credibilidade de um desporto que se pretende afirmar para além do seu próprio reduto. 

É aqui, quando existem focos de crise, que a intervenção da FPAK se torna decisiva. 

É nos momentos em que a imagem do automobilismo se pode deteriorar, que os dirigentes federativos devem intervir, procurando ‘politicamente’ exercer um magistério de influência na procura de soluções equilibradas e razoáveis, desde que dentro do espírito dos regulamentos. 

Não está em causa a ingerência no trabalho dos Colégios de Comissários Desportivos, que têm de ser soberanos das suas decisões. 

Está em causa a necessidade de, a espaços, quando não há uma intenção deliberada de ferir a verdade desportiva, encontrarem-se soluções que minimizem os danos causados aos Ralis, nos casos em que da aplicação automática e sem contraditório dos regulamentos saem todos a perder e ninguém a ganhar. 

Uma vez mais, em pleno auge da controvérsia que eclodiu a partir de Monchique, Manuel Mello Breyner e Joaquim Capelo assistiram, como sempre, absolutamente mudos e calados ao evoluir da situação, prestando, por omissão, novamente um mau serviço a este desporto. 

Quando os acontecimentos recomendavam uma palavra conciliatória, quando o contexto pedia ações rápidas tendentes a resolver um problema, o antigo piloto e navegador (como reagiriam se ainda fossem praticantes, e se tivessem visto a braços com uma penalização como a que foi aplicada às seis duplas de pilotos que acima identificámos?), hoje com as mais altas responsabilidades nos Ralis nacionais entre mãos, não se sentiram, mais uma vez, na necessidade de vir a público esboçar sequer uma palavra ou mensagem na defesa da modalidade. 

Permita-se-nos, por isso, uma derradeira pergunta: quando os dois maiores dignatários dos Ralis neste país não compreendem as exigências do cargo que detém, quando em situações de polémica deixam o fogo propagar sem esboçar qualquer intenção de apagar chamas, se não servem para, sempre o contexto assim o determina, fazerem a defesa de quem faz (e paga para fazer) o espetáculo, servem afinal para quê?

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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