P.E.C. Nº 371: Sai uma polémica para a mesa do canto, s.f.f...



Está-lhes em definitivo nas entranhas e na massa do sangue: os Ralis portugueses não sabem viver sem controvérsias. 

Num qualquer momento em cada época desportiva não há polémica? 

Não faz mal. 

Inventa-se uma. 

Uma discussão serena e aprofundada sobre os múltiplos problemas estruturais da modalidade, isso é que, claro, não pode mesmo ser. 

A moda mais recente cá pelo burgo são os pódios

Nas últimas semanas tem-se perorado abundantemente sobre quem deve ou não integrar as cerimónias do pódio nos Ralis nacionais, com especial incidência nas etapas do Campeonato de Ralis FPAK

A sequência de acontecimentos é em si mesma simples e conta-se em poucas linhas. 

No final de julho, em Aguiar da Beira, na prova colocada no terreno pelo Clube Automóvel da Marinha Grande e integrada no Campeonato de Ralis FPAK, Manuel Correia e Isabel Pinto triunfaram, mas, como não se encontram inscritos na citada competição, viram-se privados de subir ao lugar mais alto do pódio final. 

Pouco mais de um mês volvido sobre o Rali disputado em terras beirãs, o início de um setembro escaldante fez também subir as temperaturas ali para os lados de Viana do Castelo

No Rali organizado pelo Clube Automóvel de Santo Tirso, sucedeu precisamente o contrário: Adruzilo Lopes e Luís Lisboa venceram a prova na estrada, foram chamados num pódio extra a comparecer com o respetivo automóvel no degrau mais elevado do palanque, mas depois levantou-se um coro de vozes a lembrar que tal não devia ter sucedido, em virtude de não estarem inscritos no Campeonato de Ralis FPAK mas sim no Campeonato Nacional de Ralis GT, numa encenação tosca e escusada de um qualquer argumento intitulado 'o meu campeonato é melhor que o teu'...

Confuso, caro leitor? 

Comungamos do seu estado de alma

Vá-se lá ser agente ligado à modalidade nesta freguesia

Regulamentos esquissos e pouco esclarecedores permitem estas trapalhadas. 

Manobras de bastidores e pressões de diversa origem só as agravam sem grande margem para reversão. 

As ironias de tudo isto são engraçadas. 

Tal como os políticos, há, sabe-se agora, alguns pilotos portugueses cujo centro das preocupações será pelos vistos, literalmente, aparecerem na fotografia… do pódio

Não diabolizamos, note-se, a existência dos pódios

São importantes enquanto ritualismo que nos fomos habituando a ver de mãos dadas com o automobilismo. 

Marcam a consagração de pilotos e a definição da hierarquia final dentro de uma prova. 

Servem de descompressão generalizada aos agentes deste desporto. 

E podem até, se quisermos, ajudar a promover os patrocinadores que engalanam carros e fatos de competição, ou apoiam financeiramente os próprios Ralis. 

Se nos abstrairmos dessas considerações, um pódio não é mais que um mero momento registado em imagem ou vídeo. 

Nessa medida, quando se investem rios de tinta a debater quem (e em que circunstâncias) deve integrar os três lugares dos púlpitos desta disciplina, estamos a entrar no caminho, impróprio, a partir do qual os Ralis passam a valorizar a forma em manifesto prejuízo da substância. 

Quando a modalidade enfrenta desafios enormes em termos de sustentabilidade futura, quando existem tantas e tantas questões às quais urge rapidamente dar respostas estáveis e duradouras, eis que os principais agentes da modalidade canalizam energias para discutir um momento em que os carros por sinal até estão parados, ao invés, como seria suposto, de investirem tempo a debater a forma como é que eles devem andar

Uma das pedras de toque para o futuro dos Ralis nacionais assenta na ideia de credibilidade. 

Aos olhos de quem segue a modalidade enquanto adepto, ou aos de quem investe nela enquanto patrocinador, é difícil explicar que um determinado automóvel e seus pilotos foram os mais rápidos num Rali (se quisermos: ganharam-no), mas não podem, por imposição regulamentar, estar no lugar mais alto do pódio no final da respetiva prova. 

Por maioria de razão, ninguém verdadeiramente compreende como é que uma dupla de pilotos que ficou no segundo lugar final em determinado Rali, ocupe depois o lugar mais alto do pódio na subsequente cerimónia de entrega de prémios. 

Qualquer modalidade desportiva para se credibilizar aos olhos de todos quantos se interessam (ou podem vir a interessar) por ela, tem de se fazer compreender e ser clara nas mensagens que passa para o exterior. 

Um pódio é, sempre, uma expressão de mérito. 

Funciona por definição como decorrência de uma hierarquia de competências e qualidade. 

Aceitamos, para não nos eximirmos a exprimir a nossa opinião sobre o assunto, que em qualquer Rali possa haver várias cerimónias de pódio, tantas quanto os diversos campeonatos dos quais ele faz parte. 

O que não pode, parece-nos, é deixar de existir também um pódio que expresse com precisão a escala de andamentos em prova, independentemente das características técnicas e categorias regulamentares dos bólides nela inscritos. 

Os pódios no CRFPAK, nesta problemática temporada de 2016, assemelham-se perigosamente à lógica do Clube do Bolinha: Grupo X não entra! 

Numa competição que neste ano de ‘regresso’ vai enfrentando alguns problemas ao nível da sua própria competitividade, a par de uma certa desertificação quanto às listas de inscritos, é péssimo sintoma dedicar-se tanto tempo de antena a algo (pódios) que, assuma-se, é matéria pós-Rali, ao invés de se debater o essencial deste desporto que nos parece encontrar-se centrado no antes e no durante cada Rali. 

Num contexto em que tanto se reivindica soluções para procurar tirar automóveis das garagens e trazê-los novamente para as classificativas, mal vai uma entidade federativa quando, por via dos regulamentos, o sinal que difunde é no sentido de transmitir aos respetivos pilotos que são bem-vindos, eventualmente até necessários, mas que não têm direito ao reconhecimento formal do seu andamento em prova. 

É, para concluirmos e socorrendo-nos da metáfora, de péssimo tom convidar-se alguém para jantar e depois simplesmente excluí-lo da selfie aos convivas na parte da sobremesa ou na fase dos digestivos

Falta, no geral, quem olhe para o CRFPAK como um todo e assuma as mudanças quem têm de ser implementadas para que passe a ser encarado como uma alternativa, válida e credível, à competição maior dos Ralis deste país. 

Uma boa ideia passa por torná-lo mais inclusivo e menos exclusivo

Uma outra boa ideia passa, segundo nos parece, por os duelos entre concorrentes serem apenas e só os que se desenvolvem nos troços, e não os que andam a ser alimentados de forma pífia com vista a definir quem integra ou não os pódios...



AS FOTOS EXIBIDAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
http://www.caruspinus.pt/ralie-aguiar-da-beirasernancelhe-2016-cheio-de-espetaculo-e-animacao/
- http://radioaltominho.pt/wp-content/uploads/2016/09/RALI_PODIO.jpg

Comentários