P.E.C. Nº 377: Imagine...


Vamos propor-lhe, caro leitor, um exercício de imaginação. 

Suponha que estamos a analisar o campeonato do escalão máximo do futebol português nesta época em curso. 

Dezoito equipas em competição. 

Trinta e quatro jornadas a disputar ao longo do ano. 

Até aqui, tudo normal. 

Imagine também, amigo leitor, que na altura em que faz a fineza de ler estas nossas palavras se encontram já cumpridas vinte e cinco ou vinte e seis das citadas trinta e quatro jornadas do calendário desportivo da Primeira Liga do futebol português. 

E suponha que nessas vinte e cinco ou vinte e seis jornadas, apenas quatro dos dezoito clubes inscritos no escalão maior do nosso futebol haviam comparecido na totalidade dos jogos. 

Mas imagine mais, amigo leitor. 

Imagine, por exemplo, que antes do campeonato arrancar haviam equipas que desde logo, por falta de verba, descartavam uma ou até mesmo as duas deslocações insulares rumo à Madeira para ali disputar os jogos com o Marítimo e/ou com o Nacional, mesmo sabendo de antemão perderem irrevogavelmente os três pontos em liça. 

Imagine que, no período de pré-temporada, diversas equipas afirmavam publicamente que pretendiam disputar o maior número possível de jornadas da Primeira Liga, mas não tinham orçamento garantido para toda a época e que, nessa medida, iriam, jornada a jornada, arranjar forma (leia-se: dinheiro) de poder comparecer, mesmo, nesse cenário, com muito pouco tempo de treino antes de cada partida e sem grandes rotinas nem ritmo de jogo para poder ombrear com os adversários, sobretudo os que jogavam domingo após domingo. 

Imagine ainda, caro leitor, que havia equipas que compareciam a jogo sim senhor, mas que no decurso do mesmo, por falta de verba, não podiam apostar em botas com pitons de alumínio (recomendáveis em função do estado do terreno), antes jogando com umas sapatilhas/ténis baratuchos e muito menos aderentes ao relvado. 

Imagine, já agora, que várias equipas se apresentavam em campo dando instruções aos seus jogadores para serem cuidadosos na entrega ao jogo, absterem-se por completo do contacto físico com os adversários, para não comprometer com cuidados de enfermaria o depauperado orçamento ainda existente para o resto da época desportiva. 

Retrocedendo no tempo, imagine o companheiro leitor que em anos anteriores uma equipa entrava na última jornada da Primeira Liga já com o título matematicamente no bolso, mas que para um dos seus jogadores poder ser também (merecida…) e formalmente campeão iniciava o último jogo do ano com esse elemento a titular, e no primeiro minuto de jogo, garantido agora o título de campeão nacional também ao citado jogador, simulava-se uma lesão qualquer com a equipa de imediato a abandonar o terreno para não mais voltar até ao apito final do árbitro após os noventa minutos (a crítica não é ao procedimento, mas antes ao facto dos regulamentos possibilitarem o procedimento)

Continuando a das asas à imaginação, suponha que uma equipa não competindo para o título absoluto por não ter orçamento para tal, fixa como meta um objetivo um pouco menos ambicioso como, por exemplo, uma ida à Liga Europa, ou ser a melhor dos ‘não grandes’, e que atingido tal desígnio antes de a época acabar pura e simplesmente não comparece às jornadas finais do campeonato para poupar budget para a época seguinte. 

Paremos por agora com exercícios de imaginação. 

Passemos, pois, aos desígnios do concreto. 

Merece-lhe, caro leitor, credibilidade e interesse um campeonato assim? 

Entusiasma-se com uma competição na qual previamente se apresentam um conjunto de contendores para disputar na íntegra um conjunto de etapas (a isso se chamam campeonatos), e depois vigora a cada jornada um regime de comparências ad hoc, em que à partida nunca se sabe muito bem quem aparece em campo e quem prima pala ausência? 

Não, pois não? 

Pois bem, caro leitor, bem-vindo, então, ao Campeonato Nacional de Ralis, colheita de 2016

Uma espreitadela ao portal eletrónico da FPAK (um exercício que recomendamos ser feito com alguma regularidade, pelos ilações que permite extrair) revela-nos muito do que está a ser a temporada em curso, aliás, em bom rigor, a continuidade daquilo que conhecemos em anos anteriores na competição maior dos Ralis em Portugal. 

As contas são simples de fazer. 

Após o Rali de Mortágua (consultar imagens do evento nas cinco P.E.C. anteriores deste blogue) estão cumpridas seis das oito jornadas que o CNR comporta na época desportiva em curso. 

Para trás estão, portanto, 75% dos Ralis que compõem o calendário de 2016. 

Com uma tendência que talvez se agrave até final do ano (Pedro Meireles, em extensa mas muito interessante entrevista concedida esta semana à AutoSport, refere que não irá disputar o Rali Casinos do Algarve…), à medida que por antecipação forem sendo conhecidos os campeões nas várias categorias que compõem o campeonato nacional, para já o que se sabe é que dos trinta e um pilotos que constam na lista de inscritos da competição, apenas sete (repetimos: apenas sete) é que estiveram presentes em todas as seis provas já disputadas

Portanto, se o leitor preferir, é menos de um em cada conjunto de quatro pilotos os que, para já, reuniram condições para alinhar na totalidade das etapas de 2016 volvidas até à presente data

Na melhor das hipóteses, vamos escrevê-lo de forma nua e crua, somente sete pilotos completarão todos os oito Ralis que compõem o nacional da modalidade no presente ano

Sete

Apenas sete. 

Apenas um único (acima na foto), nas duas rodas motrizes, à margem de quem corre com os R5

Lembramo-nos, no início da época, do frenesim e excitação (em excesso são sempre más conselheiras…) que em março se apoderou da esmagadora maioria dos agentes da modalidade à partida para o Rali Serras de Fafe

Algo impantes tínhamos, recorde-se, o ‘melhor campeonato da Europa’, face à presença, na prova fafense, de mais de uma dezena de carros com as especificações R5, esquecendo-se por completo, como vai sendo norma, que não só o CNR não é apenas os pilotos que tripulam R5, como, pior, já se adivinhava que vários deles não reuniam condições para disputar a temporada na totalidade. 

Meio ano depois, a realidade, desarmante, aí está. 

Todos (todos…) os inscritos no RC2N não vão comparecer em pelo menos uma etapa do respetivo campeonato. 

No grupo RC4, cenário em tudo igual. 

No grupo RC5, também. 

Num problema estrutural que não é exclusivo da presente época e já transita de anos anteriores, há forçosamente ilações a tirar. 

Uma competição que não sinalize interna, mas sobretudo externamente, estabilidade quanto ao conjunto dos seus participantes, dificilmente conseguirá promover-se de forma credível e duradora, muito menos atrair quem nela invista. 

Em abstrato, oito rondas anuais em qualquer competição de automobilismo não é um número excessivo. 

Em campeonatos internos disputados por essa Europa fora (Itália, com a qual nos gostamos por vezes de comparar, é um exemplo), com contextos desportivos e económicos bem mais dinâmicos que a realidade lusa, é esse aproximadamente o número de eventos em cada ano que estão inscritos nos respetivos calendários. 

Em Portugal, a margem é quase residual, como uma análise fria aos números que acima trouxemos a terreiro facilmente confirma, para haver oito Ralis em cada temporada do CNR

Partindo daqui, o desafio que a modalidade transporta consigo é precisamente definir quantas provas cada temporada deve (talvez melhor: pode) comportar, e que tipo de Ralis (extensão, pisos, localização geográfica) são os mais adequados para ajudar a formar um campeonato sólido e sustentável no número de inscritos. 

É uma discussão, como não nos cansamos de recordar, absolutamente decisiva para o futuro da modalidade no nosso país a curto-médio prazo. 

Muitas vezes a discussão dos grandes temas de fundo sobre os Ralis cá do burgo centram-se muito no acessório e pouco no essencial. 

seis meses, no início do ano desportivo, a palavra de ordem que mobilizava o entusiasmo coletivo era a contagem de carros R5 que iriam desfilar pela passerelle da Lameirinha descendo a escadaria do Confurco

O erro generalizado de análise reside precisamente aí.

Os Ralis portugueses discutem muito a (indiscutível) beleza dos(as) manequins na passerelle, mas pouco ou nada o rigor da costura ou a qualidade da confeção de uma marca que dá pelo nome de Campeonato Nacional de Ralis.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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