P.E.C. Nº 379: Porreiro, pá(i)!


1)

À semelhança da sociedade em diversos aspetos da nossa vida coletiva, o automobilismo português alimenta há anos um certo preconceito contra alguns pilotos. 

Os exemplos são vários. 

Hoje, o caso mais flagrante será, pensamos, Miguel Barbosa.

Antes, recordamo-nos de Pedro Matos Chaves (que silenciou detratores à medida que na carreira foi exibindo notória categoria e dotes de condução acima da média), ou, num passado menos distante, José Monroy

Não importa nestas linhas dirimir o talento ou a relevância desportiva dos três pilotos citados. 

O denominador comum entre si é serem filhos de pessoas que, em determinada altura, tiveram ou ainda têm responsabilidades avultadas ao nível do dirigismo dentro da competição automóvel nacional. 

Uma certa ideia que ganhou corpo ao longo dos tempos, ampliada à medida que foram proliferando fóruns de debate pela internet, construiu uma ‘verdade’ hoje mais ou menos enraizada dentro da comunidade que segue as corridas de carros no nosso país. 

Reza esse ‘postulado’ que, além de outros, os nomes atrás citados conseguiram em função dos respetivos apelidos, só por tal facto, mais facilidade em construir carreiras na modalidade. 

Que os laços de consanguinidade de forma automática tornaram o ‘sistema’ (para nos socorrermos de uma expressão tão cara ao futebol português) particularmente benévolo a terem vantagem competitiva perante os adversários. 

Não aderimos a essa tese. 

Por um lado, por se nos afigurar que em abstrato ninguém está, nem deve estar, privado de praticar automobilismo só por ser descendente direto de pessoas influentes na modalidade. 

Por outro, porque defendemos que a bitola para aferir a qualidade de um piloto exprime-se pelo cronómetro e não pelo sobrenome. 

Matos Chaves está há mais de uma década retirado das competições. 

Monroy é piloto de velocidade. 

Centremos, pois, a análise em Miguel Barbosa

2)

O piloto de Lisboa sempre foi uma espécie de mal-amado dentro do automobilismo português. 

Filho de alguém que, goste-se ou não, tem considerável peso e protagonismo dentro deste desporto, desde que começou a sobressair nas competições de Todo-o-Terreno batendo ao tempo o pé a Carlos Sousa, foi de forma injusta carregando consigo o rótulo de beneficiar de um regime de ‘protetorado parental’ como forma de alavancar as suas prestações desportivas. 

Miguel Barbosa ter-se-á alheado por completo dessa imagem que se construiu sobre si. 

De lá para cá são nove os títulos absolutos de campeão nacional que indexou no respetivo palmarés. 

Sete no campeonato nacional de Todo-o-Terreno, com viaturas de diferentes caraterísticas e de diversas gerações. 

Dois no nacional de velocidade, aos comandos de carros diferenciados como os GT e protótipos. 

É objetivamente um curricula desportivo que nos merece muito respeito. 

Que seguramente foi conquistado com doses generosas de inspiração e transpiração, ao volante, dentro dos carros, decerto à margem de meros carateres inscritos no seu Bilhete de Identidade ou Cartão de Cidadão

Cumpre portanto referir que no início da temporada de 2016 foi com satisfação e interesse que registámos o tirocínio de Barbosa para os Ralis, volvidos quase vinte anos nestas andanças. 

Pareceu-nos acima de tudo uma decisão com significativa coragem. 

Quando podia tentar ampliar o seu séquito de troféus no Todo-o-Terreno, modalidade que conhece como poucos, ou acertar agulhas rumo ao renovado Campeonato Nacional de Velocidade onde até tem pergaminhos, foi seguramente louvável a mudança de rumo e o novo desafio que lançou à sua carreira. 

Se há disciplina do desporto automóvel onde um neófito sem experiência tem dificuldades em singrar, essa disciplina são os Ralis. 

Se há campeonato de automobilismo em Portugal onde em nossa opinião é difícil vingar e ser bem-sucedido (pelo plantel de carros e pilotos muito competitivo, e pelas dificuldades intrínsecas ao conceito e filosofia dos Ralis) é precisamente o CNR, com dificuldades acrescidas para quem chega quase sem traquejo e tem tudo a aprender.  

Barbosa, após seis Ralis vem fazendo, passo a passo, o seu caminho das pedras

As performances têm melhorado com os quilómetros entretanto acumulados, a clivagem de tempo para os mais rápidos tem vindo a diminuir, a consistência de andamento vai sendo linear a cada troço e ao longo das provas, pelo que os resultados, esses infalíveis indutores de motivação, começam a aparecer. 

De acordo com algumas reflexões já expressas anteriormente neste trabalho, Miguel Barbosa não está minimamente limitado na sua liberdade de praticar automobilismo, enquanto amador ou profissional das corridas, pelo facto de ser filho de Carlos Barbosa, Presidente da Direção do ACP.

Mais: Carlos Barbosa está no pleno direito de, enquanto pai (e como qualquer pai…), colaborar ativamente na procura de condições para que o percurso do seu descendente possa ser o mais vitorioso possível.

Mais ainda: não nos repugna rigorosamente nada que Carlos Barbosa, enquanto pai, eventualmente se socorra da sua rede de contactos e influência no automobilismo para procurar patrocinadores que apostem na carreira desportiva do seu filho.

O que nos parece que claramente Carlos Barbosa não pode no plano dos princípios fazer, é instrumentalizar instituições de que faz parte enquanto membro e/ou dirigente, colocando-as ao serviço dos interesses do seu rebento.

É aqui que entramos, então, numa outra dimensão da nossa análise.

3)

Uma das boas notícias que os Ralis nacionais receberam em 2016: a transmissão no canal internacional Motors TV de resumos com cerca de trinta minutos das etapas do Campeonato Nacional de Ralis da presente temporada, poucos dias após o rescaldo de cada uma das provas.

Tem sido um exercício muito interessante seguir tais reportagens.

Olhando em perspetiva e abstraindo-nos dos problemas e desafios que a competição maior da modalidade enfrenta no nosso país, fica mais ou menos claro, até pela comparação com trabalhos no mesmo canal alusivos a campeonatos internos doutros países, que temos um CNR com níveis de qualidade bastante interessantes quanto a pilotos e navegadores, um plantel que não desmerece no que respeita a carros de topo, além de magníficos troços e Ralis bem disputados.

Em suma: há motivos para sentirmos uma pontinha de orgulho quando esta nossa modalidade de peito feito e cara aberta se projeta lá fora.

No resumo que para o efeito foi transmitido imediatamente após o pretérito Rali Vinho Madeira (que poderá visualizar, na versão portuguesa, aqui), chamou-nos especial atenção um facto que, por tão óbvio, saltou à vista e nos fez pensar um pouco após a meia hora de reportagem que acabáramos de presenciar.

Além das peripécias em torno da prova e das polémicas que acabariam por a marcar (das quais ainda hoje são audíveis ecos…), pareceu claro ter sido dada grande nota de destaque, com laivos de algum exagero, a Miguel Barbosa, sobretudo quando comparado com diversos dos seus adversários, alguns deles que do ponto de vista desportivo até sobressaíram bem mais que o piloto do Skoda na pérola do Atlântico.

Foi uma entrevista com apreciável dimensão (vista à luz de um trabalho com trinta minutos…) para Barbosa falar sobre este seu primeiro ano nos Ralis, num discurso, aliás, humilde e realista, focado na necessidade de aprender os segredos das provas disputadas em estrada aberta.

Foi concedida também em dose generosa a palavra ao seu pai (não ao Presidente da Direção do ACP, ou ao alto dignatário da FIA em matéria de segurança nos Ralis…), Carlos Barbosa, que do alto da sua telegénica calvície ou da melodiosa voz de soprano lá foi dando também umas achegas à forma como Miguel se está a adaptar à modalidade.

Na zona de entrevista a ambos, estrategicamente colocado atrás dos dois protagonistas, vê-se estacionado o Fabia R5.

E por cima da porta do lado do piloto, além de um pequeno logotipo vermelho e branco, não deixam de dar (propositadamente?) nas vistas quatro palavras com o seu quê de assassino: Automóvel Club de Portugal.

4)

Não é de agora que o ACP apoia a carreira de Miguel Barbosa.

O clube sedeado na Rua Rosa Araújo, em Lisboa, é, aliás, institucionalmente um dos sponsors oficiais do piloto.

Se anteriormente o assunto não nos mereceu reflexão, deve-se ao facto do percurso desportivo de Miguel nunca se ter cruzado diretamente com os Ralis antes da presente temporada, à exceção de algumas participações ao volante de carros ‘0’.

Parece-nos mais ou menos evidente não haver grande espaço para considerações sobre ética ou outros princípios, quando uma instituição (seja ela qual for) é colocada ao serviço e age em benefício de familiares diretos de qualquer um dos seus dirigentes.

Sem aprofundar sequer os contornos legais de tal prática (que nos levantam algumas reservas), salta à vista, em nossa opinião, que há nesta circunstância uma violação mais ou menos grosseira dos imperativos de seriedade que devem reger a gestão de qualquer instituição, logo uma com o peso, dimensão e importância do ACP.

Não conseguimos medir o alcance e de que forma o clube em apreço prossegue o seu escopo estatutário ao subsidiar a carreira de pilotos de automobilismo.

Parece-nos, até, que será difícil explicar aos associados e outros financiadores do Automóvel Club de Portugal a justeza e bondade de ser alocado parte do valor das suas quotizações em prol da carreira desportiva do filho do respetivo Presidente da Direção.

Louve-se no entanto um facto: o procedimento é feito às claras não havendo sequer a preocupação de o camuflar.

Dir-se-á sobre o assunto, para combater a nossa posição de princípio, que não sendo sócios do ACP (com Barbosa na liderança, simplesmente não o desejamos) não temos qualquer legitimidade formal para ingerir nos assuntos da vida do clube.

Verdade insofismável.

Esta é uma questão que diz diretamente respeito aos associados da coletividade.

Em sede e local próprio terão, se assim o desejarem, oportunidade para abordar o tema.

Sobretudo aqueles que, em atos eleitorais recentes, legitimaram Carlos Barbosa pelo voto...

5)

Retrocedamos na análise que estávamos a fazer ao resumo oficial do pretérito Rali Vinho Madeira.

Tanto tempo de antena dedicado naquele trabalho a Miguel Barbosa levanta no contexto geral dos Ralis diversas questões, que, essas sim, importam aprofundar.

Por um lado saber se a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting ao ter cedido os direitos de imagem do Campeonato Nacional de Ralis à empresa Movielight, impôs diretrizes de promover a competição enquanto marca e de forma tendencialmente uniforme na exposição dada aos seus pilotos, e, quando tanto se fala na necessidade de promoção da modalidade, nos minutos concedidos à divulgação dos produtos e serviços dos respetivos patrocinadores.

Por outro lado, porque os trabalhos (aliás, com qualidade e que fazem passar com clareza ao espetador aquilo que de melhor o CNR pode oferecer) da Movielight não se esgotam no mero entretenimento, nem sequer apenas na publicitação da competição e seus protagonistas.

São reportagens de provas de Ralis.

Têm, portanto, queira-se ou não, um intuito também informativo.

Ao editar e publicar os resumos das provas do campeonato nacional, a Movielight tem a responsabilidade, a nosso ver até a obrigação, de o fazer segundo critérios de alguma equidade, fornecendo com a maior amplitude possível antena a todo o conjunto de pilotos participantes na competição.

Nessa medida, seria interessante escutar-se Pedro Falé, uma vez que não nos recordamos, nos resumos das demais provas do nacional de 2016 exibidas até à data, de ter sido concedido tanto destaque a um só piloto, muito menos dar-se em paralelo a palavra o respetivo progenitor.

critérios que os responsáveis da Movielight deveriam clarificar sem pruridos.

No caso concreto da Madeira, por exemplo, enquanto ao clã Barbosa foi concedido ênfase em dose superlativa, já pilotos como Moura, Meireles ou Vieira (este até se despistar já na fase final da prova insular), que até rodaram sempre na frente e se evidenciaram face ao Skoda n.º 5, nem sequer a uma curta declaração dando conta das suas opiniões sobre o evento tiveram direito.

O problema reside precisamente aí.

Na aparente diferença de tratamento.

Queremos deixar bem claro que para nós é ótimo que a qualquer piloto de Ralis (Miguel Barbosa ou qualquer um dos pilotos inscritos no CNR) seja concedida a palavra o mais tempo possível.

A questão é que em resumos de trinta minutos, dar-se muito destaque a um só piloto implica necessariamente dar-se pouco ou nenhum aos demais participantes na modalidade, que de igual forma têm necessidade de aparecer no espaço mediático expondo os respetivos patrocinadores, quem sabe até os respetivos pais…

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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