P.E.C. Nº 380: Descubra as diferenças...


1)

Nas próximas linhas vamos escrever sobre dois Ralis. 

Separados no tempo por uma mera semana. 

Duas provas necessariamente distintas entre si. 

Com pouco em comum a ligá-las, à exceção talvez da relativa proximidade geográfica em que se disputaram. 

Nestas linhas vamos escrever sobre o Constálica Rallye Vouzela

E também sobre o Rali Casino Espinho

O primeiro disputou-se nos passados dias oito e nove de outubro. 

O segundo no fim-de-semana imediatamente seguinte. 

O primeiro foi organizado pelo Gondomar Automóvel Sport (G.A.S.)

O segundo pela Targa Clube

O G.A.S. é uma formação relativamente jovem nestas andanças. 

O Targa é um clube quase cinquentenário, que se confunde ele próprio com a história do automobilismo português. 

O Constálica Rallye Vouzela foi em 2016 uma prova pontuável para o Campeonato Regional Centro

O Rali Casino Espinho contou na temporada em curso para o Campeonato Nacional de Ralis

O Constálica Rallye Vouzela comemorou em 2016 o terceiro aniversário. 

O Targa Clube organiza Ralis pontuáveis para o campeonato nacional, sob as mais diferentes designações e nas mais diversas localizações, desde 1969

Questionará com justeza o caro leitor: faz sentido comparar duas provas tão antagónicas entre si? 

A nosso ver, faz. 

Faz, porque comparar o Constálica Rallye Vouzela e o Rali Casino Espinho é, na nossa visão, um bom mote para identificar alguns dos problemas que toldam as competições da modalidade em Portugal. 

2)

Comecemos, então, pela prova montada em pleno coração da região de Lafões. 

O Constálica Rallye Vouzela tem vindo a afirmar-se no contexto dos ralis nacionais. 

Um dos motivos que contribui para o seu reconhecimento é o trabalho que a respetiva organização tem (muito bem) colocado em prática, no intuito de transformá-lo em algo mais que uma mera manifestação desportiva. 

Essa determinação é salutar. 

E um exemplo a seguir. 

Transcender as barreiras de um Rali do ponto de vista desportivo, significa trazer à prova, além do público da modalidade, novos públicos cujo contacto com estas andanças é nulo ou pouco expressivo. 

Significa envolver as populações locais no evento gerando-lhes expetativa e entusiasmo. 

Talvez até fomentar-lhes orgulho no evento que projeta exteriormente a sua aldeia, vila, ou cidade.

Implica criar à volta da prova todo um elã de entretenimento que faça deslocar pessoas ao centro dos acontecimentos para, a partir daí, também verem os carros e pilotos de perto. 

O Constálica Rallye Vouzela é em todos estes itens, e em mais alguns outros, um verdadeiro manual de como gerar polos de interesse à volta de um Rali. 

Trata-se de uma prova simples dentro de um desporto com tanta propensão para complicar. 

Trata-se de um Rali pequeno, fácil de treinar e acessível no valor das inscrições. 

É um evento que ainda está a gatinhar e já se tornou em algo mais que um espetáculo desportivo, transformando-se num verdadeiro acontecimento (não circunscrito apenas no plano local, refira-se)

Esse é, talvez, o melhor tributo que podemos prestar ao admirável trabalho do G.A.S. 

A equipa de Gondomar foi incansável este ano na divulgação massiva da prova. 

Esteve particularmente atenta a todos os pormenores que pudessem garantir retorno mediático aos patrocinadores institucionais do evento. 

Mostrou-se infatigável na procura de soluções para trazer para perto do Rali pessoas que não têm (mas que desta forma podem vir a ter, pelo que aposta é certeira) ligações à modalidade. 

A juntar a tudo isto (que não é pouco…) proporcionou prémios financeiros com alguma expressão aos concorrentes que mais se destacaram na prova. 

Um completo contraciclo com laivos de quase ineditismo, portanto, face ao que nesta questão se vai verificando há muitos anos nos Ralis portugueses. 

Além do apoio da edilidade de Vouzela, o G.A.S. seduziu ainda para embarcar consigo nesta aventura empresas da região a operar no mercado nacional e no exterior, muito dinâmicas e com determinação para chegar mais longe (predicados com ligam bem com a dinâmica imprimida ao evento)

Um exemplo que identificámos ao estudar o Constálica Rallye Vouzela, para não nos perdermos demasiadamente nos pormenores, foi uma ótima ideia que raramente é implementada nas provas nacionais: o ‘apadrinhamento’ de classificativas. 

É nesse contexto que na prova os troços foram de forma certeira oficialmente apelidados de ‘Constálica / Senhora do Castelo’ e ‘Plafesa / Penoita’, em complemento à ‘Superespecial Vouzela’

Como corolário deste excelente trabalho, o G.A.S. foi premiado com uma lista de inscritos com quarenta e dois carros na prova do Campeonato Regional Centro (alguns provindos de Espanha), juntando-se outros vinte concorrentes na prova de regularidade

3)

Sobre o Rali Casino de Espinho já nos pronunciámos anteriormente neste blogue

As circunstâncias em que a prova aparece no Campeonato Nacional de 2016 são conhecidas

Sobre essa matéria nada mais haverá de relevante a acrescentar. 

A prova nasceu sobre o signo da polémica. 

Pareceu ter evoluído algo perturbada com isso. 

De uma estrutura tão experiente como o Targa Clube, surpreende que tenham sido negligenciados aspetos fulcrais num evento pontuável para a mais importante competição de Ralis em Portugal. 

O rol de críticas em matéria organizativa foi extenso. 

Oriundo de vários quadrantes. 

O aspeto que mais se evidenciou pela negativa prendeu-se com a (falta de) informação ao público. 

Ao espetador nada foi referido quanto à localização das zonas-espetáculo ou de público ‘montadas’ nos troços, na presunção que existiam. 

Não foi veiculada qualquer informação, ainda que sucinta, sobre qual a melhor forma de chegar às classificativas, ou quais as estradas para circular entre elas. 

Não foi disponibilizada qualquer lista relativamente à ordem de partida dos concorrentes nos segmentos cronometrados do Rali. 

À última hora, sem que houvesse qualquer indicação nesse sentido, foi criativamente ‘inventada’ uma segunda passagem pela Superespecial de Santa Maria da Feira (imagine-se o que seria se o vencedor deste troço concebido à pressa à ultima hora, ganhasse no final do ano o campeonato, por exemplo, com meio ponto de vantagem sobre o segundo classificado…) o que desabona fortemente o Targa quando à planificação atempada da prova. 

Mesmo o diamante em bruto que se adivinhava poder vir a ser a Superespecial traçada em Gaia, acabou por se transformar num caco de vidro de questionável valor. 

A publicidade à classificativa foi, de acordo com as muitas críticas que fomos lendo e ouvido, pouca ou quase nenhuma. 

Estamos a referir-nos, note-se, num raio de poucas dezenas de quilómetros, à área do Grande Porto onde vivem centenas de milhares de pessoas. 

A meteorologia, é certo, não ajudou a uma moldura humana mais expressiva.

Mas muitos moradores junto às artérias onde a prova passou na urbe da margem sul do Douro, vários deles inclusive adeptos desta causa das corridas de carros, poucas horas antes do roncar dos motores desconheciam por completo a existência da Gaia Street Stage

Mesmo durante a pausa dos carros no Parque de Assistência montado no Europarque, os trabalhos de oficina foram de tal forma escondidos do grande público que a coisa mais parecia um transcendente segredo de Estado fechado a sete chaves

Fala-se muito (e à boca cheia) da necessidade de levar os Ralis onde está o público. 

Fala-se muito, também, da importância de divulgar e promover a competição automóvel junto do maior número possível de pessoas. 

Nesse quesito, o Rali Casino Espinho foi tão aberto quanto uma reunião de uma qualquer loja maçónica. 

Para não ir mais longe, com alguma perplexidade o Targa Clube parece ter esquecido por completo, na prova que organizou a contar para o CNR, o ótimo trabalho que tem levado a cabo em anos recentes no Caramulo Motorfestival quanto à criação de motivos capazes de polarizar de forma massiva o interesse do público.

Coincidência ou talvez não, tudo o que se referiu supra teve um preço traduzido em números: o Rali Casino Espinho reuniu um lote de apenas vinte e seis inscritos, e de acordo com os registos apenas onze duplas de concorrentes lograram chegar ao final da prova.

Dados que devem (ou deviam...) fazer pensar muita gente...

4)

Após este exercício comparativo, entramos noutro âmbito desta análise. 

Excetuando as duas provas insulares (Açores e Madeira) que se disputam em contextos específicos e têm vicissitudes próprias, os restantes seis eventos que há anos integram o Campeonato Nacional de Ralis têm vindo a ser confiados por via de regra invariavelmente aos mesmos organizadores

A exceção foi, em 2014, o Rali de Castelo Branco

No lote destes seis clubes organizadores, há quem ponha provas na estrada com elevados padrões de rigor e planificação, de acordo com as exigências de uma competição que envolve milhões de euros em cada temporada. 

Porém, o reverso da medalha também se verifica: nesse lote, restrito, há quem simplesmente não tenha dimensão e competência (não necessariamente o Targa Clube, note-se) para levar a cabo a missão, muito exigente, de montar um Rali integrado no campeonato nacional

muitos anos que o ‘sistema’ se protege a si próprio

Poucas são as vozes que se têm feito ouvir insurgindo-se contra a imoralidade de serem sempre os mesmos (o que não é por si só sinónimo de melhores, longe disso…) a poder levar para estrada etapas do CNR

A FPAK vem alimentando de forma espúria esta reserva ao direito de admissão

Não se estimula ninguém (os que estão, e os que poderiam estar à luz do saudável princípio de premiar o mérito e a qualidade) a elevar os seus próprios padrões organizativos. 

Não há escrutínio institucional sobre o que tem vindo a ser feito. 

Se o há, é sob a forma de relatórios envoltos em secretismo elaborados pelos observadores da FPAK em cada Rali, aos quais a esmagadora maioria dos agentes deste deporto nem sequer tem acesso

A opacidade do sistema não podia ser maior. 

Ensaiou-se em anos recentes um simulacro de rotatividade no que diz respeito às entidades organizadoras das provas do nacional de Ralis, que rapidamente se percebeu que seria para inglês ver.

Fica bem à vista alguma desestruturação deste desporto quando a concessão dos Ralis do CNR não assenta estritamente em critérios de mérito. 

uma casta à qual se concede a fatia de leão para levar a cabo os eventos da mais importante competição da modalidade em Portugal. 

E há depois todos os outros aos quais lhes vão sendo distribuídas as migalhas que o CNR não quer.

Este vício tornou-se estrutural e, como uma marca automóvel publicitava no passado, veio para ficar, sem que alguém se insurja ou esboce o mais leve sinal de desconforto com tanto situacionismo.

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Nota 1

Várias das considerações que desenvolvemos neste trabalho relativamente ao Constálica Rallye Vouzela, aproveitam também a várias outras estruturas que organizam Ralis no nosso país. 

O Clube Automóvel de Santo Tirso e o admirável trabalho realizado com o Rali de Viana do Castelo é, entre outros, um desses exemplos.

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Nota 2:

Declaração de (des)interesses.

Nada de pessoal ou institucional nos move contra ou a favor do Gondomar Automóvel Sport ou do Targa Clube.

Os juízos críticos expressos neste trabalho devem ser interpretados, portanto, como uma tentativa de introduzir no debate sobre os Ralis portugueses o princípio da rotatividade na organização das provas do campeonato nacional, através de critérios objetivos e passíveis de escrutínio, com a divulgação pública dos relatórios emanados pelos observadores da FPAK presentes em cada Rali.

Tão simples quanto isso...

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