P.E.C. Nº 381: O Eterno Feminino...


Uma senhora foi recentemente coroada campeã nacional absoluta de Ralis. 

Foi-o com todo o mérito. 

Conquistou tal honraria porque na qualidade de navegadora e em conjunto com o respetivo piloto, simplesmente formaram a dupla mais fiável, veloz e vitoriosa ao longo da temporada. 

Talvez houvesse, de entre os mais avalizados copilotos nacionais (e há muitos com tremenda qualidade na respetiva função), quem pudesse ter feito um trabalho tão positivo quanto Inês Ponte em 2016. 

Porém, olhando para os resultados, fica a certeza que nenhum deles desempenharia melhor a missão de copilotar J. P. Fontes que a agora campeã nacional em termos absolutos na classificação reservada aos 2.ºs Condutores/Navegadores

Um título, por conseguinte, justíssimo e obtido de forma assaz brilhante. 

Que, aliás, tem vindo a ter ecos consideráveis na imprensa generalista. 

Que colocou os ‘penduras’ dos Ralis em patamares de reconhecimento no contexto do desporto em geral que se julgavam inimagináveis até há pouco tempo. 

Que, enfim, veio recordar a importância decisiva dos homens e mulheres que se sentam no banco do lado direito dos carros de Ralis quanto à obtenção de grandes resultados na modalidade. 

O nosso automobilismo em geral e os Ralis em particular manifestamente ainda não compreenderam o tremendo potencial que se pode associar a este título de Inês Ponte

Desde logo, a mensagem fortíssima que constitui o facto desta modalidade, os Ralis, se poder afirmar dentro do desporto em geral como uma das mais igualitárias e sem distinções de género. 

Repare-se: no universo das grandes manifestações desportivas o padrão é existirem competições masculinas e femininas que, por via de regra, como a água e o azeite, não se misturam. 

É assim em desportos coletivos como o basquetebol, o futebol, ou o voleibol

Passa-se o mesmo em desportos individuais como o ténis, os denominados desportos de combate (karaté, judo, etc…), a natação ou o atletismo

Os Ralis deviam aproveitar este elã em torno do triunfo averbado por Inês Ponte, precisamente sinalizando serem uma atividade desportiva interclassista, que oferece condições de sucesso por igual a senhoras e cavalheiros. 

Promovendo, se quisermos, um jogo de sedução a todas as mulheres (um público-alvo que nunca foi olhado com a devida atenção por parte dos decisores da modalidade) que pretendam afirmar-se no desporto competindo sem complexos, de igual para igual, com os representantes do sexo masculino. 

A mensagem subliminar seria muito expressiva, a nosso ver: vincar a ideia que os Ralis são das pouquíssimas modalidades em que uma senhora pode ombrear e até mesmo superar os homens em igualdade de circunstâncias. 

Sublinhe-se a ironia e a contradição: tanto se escreve e fala sobre a necessidade deste desporto se promover e chegar ao maior número de pessoas possível, e em simultâneo é negligenciado de forma grosseira um universo, as mulheres, que constitui mais de metade da população portuguesa. 

Os dias e semanas irão passar. 

A torrente noticiosa diária fará, com o decurso do tempo, esmorecer o impacto do campeonato nacional conquistado por Inês Ponte

Nem os próprios patrocinadores ou a marca construtora do bólide em que a navegadora se sentou em 2016 parecem pretender capitalizar este feito. 

Um pouco à semelhança de Telma Monteiro, que hoje já transpôs largamente o âmbito do judo propriamente dito, os altos dignatários dos Ralis portugueses deviam já estar a trabalhar este título de Inês, partindo da base da desportista de elite para a elevar a um patamar mais alto, funcionando como um símbolo da determinação feminina e daquilo que esta modalidade pode oferecer, quer aos homens, quer às mulheres deste nosso país. 

A copiloto, aliás, personifica na perfeição a matriz do papel das mulheres na sociedade, onde cabem em simultâneo (organização feminina a quanto obrigas…) conceitos como a profissão (Inês Ponte é fisioterapeuta), a atividade desportiva encarada muito a sério, a mulher de família, a esposa, e, mais importante que todos os anteriores fatores somados, a superior missão de ser mãe

Como muitas vezes tem sucedido noutros exemplos e noutros quadrantes, os Ralis parecem não compreender verdadeiramente as virtualidades do título conquistado por Ponte, e os benefícios que a modalidade poderia extrair a partir dele. 

Num meio esmagadoramente constituído por homens, porventura é difícil para alguns egos conviver com o facto de haver uma mulher que chega, é convidada para um lugar no qual muitos ou praticamente todos os navegadores nacionais gostariam de se sentar (e há muitos com categoria bastante para se sentar no banco do lado direito do Citroen bicampeão nacional), desempenha sem mácula a sua função, contribui fortemente para triunfos em classificativas e vitórias em provas, e, por fim, sagra-se sem grande contestação campeã nacional juntando o seu nome a uma extensa lista onde constam todos, ou quase todos, os 'penduras' que fizeram história neste desporto em Portugal. 

Talvez estejamos perante uma reminiscência do machismo empedernido que tantas e tantas bolsas de resistência ainda mantém neste país em pleno século XXI. 

Ou talvez estejamos perante o conservadorismo e imobilismo ancestralmente associados aos Ralis portugueses, que em tantas e tantas ocasiões impediram ontem, como impedem hoje, esta modalidade de voar mais alto. 

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