sexta-feira, 25 de novembro de 2016

P.E.C. Nº 384: Trivelas, roupas de marca e as fintas do Chalana…


O passado fim-de-semana passado foi chuvoso. 

Especialmente caseiro, portanto. 

Para não carregarmos demasiado o sofá com o nosso peso indolente, dedicámo-nos com abundância a seguir as novidades automobilísticas, não deixando de dar diversas espreitadelas à forma como foi decorrendo a prova de encerramento do Campeonato de Espanha de Ralis em Asfalto, ali pelos arredores de Madrid. 

Moveu-nos o interesse pela modalidade. 

Mas também uma questão de afetos. 

A começar, claro, pelas duas duplas de pilotos e navegadores ali presentes oriundas de Portugal. 

Os Ralis em Espanha são diferentes dos nossos. 

Por exemplo, no que se refere à extensão das provas, maior que no nosso país. 

Ou, entre outras especificidades, no enquadramento regulamentar que possibilita diferentes tipologias de carros almejarem bons resultados. 

Mergulhando no desconhecido, previa-se que os campeões nacionais José Pedro Fontes e Inês Ponte experimentassem dificuldades nesta incursão ao país vizinho que por norma não conhecem nas provas do CNR

O Rallye Comunidad de Madrid, posto na estrada pelo Real Automóvil Club de España (se o caro amigo leitor quiser, uma espécie de ACP lá do sítio…) e em estreia absoluta para a dupla do Citroen DS3 R5, confirmou as esperadas e naturais adversidades. 

O quinto lugar final a 2m:28s dos vencedores foi o resultado possível, tendo em atenção o desconhecimento das classificativas, alguns cuidados nos troços noturnos do primeiro dia e a penalização de um minuto em que a dupla nacional incorreu no decurso da prova. 

José Aloísio Monteiro, navegado por Sancho Eiró, regressou a Portugal certamente com bastos motivos para sorrir. 

Não só foi segundo classificado final na categoria R3, correspondente ao décimo oitavo lugar final à geral, como venceu neste Rali a classe de carros R3T, conquistando como cereja em cima do bolo um excelente terceiro lugar final no Troféu Clio R3T Ibéria 2016

Na prova de fecho do Campeonato de Espãna de Rallyes de Asfalto (C.E.R.A), além do natural interesse e entusiasmo pelas prestações das duplas de pilotos e navegador(a) nacionais, houve outros fatores a ligar-nos afetivamente à prova. 

Na linha de raciocínio que desenvolvemos anteriormente neste blogue, suscitou-nos curiosidade em especial seguir o evoluir do Rali por parte dos diversos GT que alinharam à partida, com especial incidência no Lotus Exige pilotado por Dani Marbán e navegado por Víctor Manuel Ferrero

Este projeto montado à volta do pequeno coupé desportivo britânico parece-nos muito interessante. 

Contem vários dos ingredientes capazes de gerar atenção em torno de um carro de Ralis. 

Quando experimentado em Espanha pela primeira vez por, entre outros, o já então consagrado Sérgio Vallejo ou Álvaro Muñiz, o Lotus foi visto como um patinho feio na modalidade. 

Além de ter consideravelmente menos potencia que o rival Porsche (embora também menor peso) e menor carga aerodinâmica que o ícone alemão (compare-se, por exemplo, a dimensão dos respetivos ailerons traseiros), a criação inglesa sofreu então também com inúmeros e quase crónicos problemas de fiabilidade. 

O Lotus era, em resumo, pouco competitivo. 

Todos somados, estes foram predicados que após as cinco primeiras provas da temporada de 2011 em Espanha levaram Vallejo em definitivo a esquecer o Exige enquanto projeto vencedor para Ralis, regressando à Porsche que lhe havia dado fama e proveito. 

Na última prova da época de 2013, precisamente o Rally Comunidad de Madrid, Marbán resgatou o automóvel produzido na ilha de sua majestade para as provas de asfalto do país vizinho, confiando-o à Escuderia 1000 lagos para os respetivos serviços de preparação. 

Na altura, Daniel ostentava já no palmarés dois títulos de campeão nacional em Ralis de asfalto no agrupamento de produção (2011 e 2012)

Esta inflexão rumo a um carro que dava poucas ou nenhumas garantias de competitividade parecia um retrocesso na carreira do piloto madrileno. 

Ao tempo foi um projeto que praticamente todos os quadrantes não levaram a sério. 

Porém, a força de uma ideia mede-se sempre em grande medida pela forma como o respetivo autor acredita nela. 

Dani Marbán acreditou no Lotus

Talvez mais ninguém tenha acreditado. 

Mas Marbán acreditou. 

Percebeu que tinha de por mãos à obra aprimorando a sua condução. 

Compreendeu que o carro tinha de ser bastante trabalhado nas mais diversas vertentes para se tornar competitivo. 

Em 2014 conseguiu ser vigésimo segundo classificado no final do C.E.R.A., marcando 38 pontos. 

Sempre em crescendo de resultados, no ano seguinte concluiu a mais importante competição de Ralis em Espanha no sétimo lugar, amealhado 101 pontos. 

Na época recentemente terminada ficou em sexto lugar, concluiu os dois derradeiros Ralis do ano à porta dos lugares do pódio, e como balanço final do ano garantiu 127 pontos no bornal. 

Do afã posto em prática neste três anos por Dani e a sua equipa de apoio, resulta algo que se julgava completamente impensável há bem pouco tempo. 

O coupé inglês atingiu um apuro de performance e é de tal forma bem conduzido que se mede de igual para igual com os R5 que alinham nas provas do país vizinho. 

As estatísticas do Rally Comunidad de Madrid (consultar a respetiva lista de inscritos aqui e aqui e o mapa das classificativas aqui) que encerrou a temporada de 2016 são paradigmáticas. 

O Lotus venceu classificativas e na maioria dos treze troços do evento rodou sempre no lote dos três concorrentes mais rápidos. 

De forma improvável e sem que alguém o concebesse sequer como hipótese académica há três anos, fruto de muito trabalho hoje o Exige é um carro potencialmente vencedor em Espanha. 

É daqueles projetos, que vão rareando, que encaram um automóvel como algo que é sempre possível melhorar, ainda que naquele ínfimo pormenor que à primeira vista não parece importante. 

A isso junta-se, claro, o grande crescimento de Marbán como piloto e afinador. 

E aí temos, então, a máquina a espalhar rapidez nos tramos do país vizinho. 

O Lotus, aliás, faz-nos por vezes lembrar aqueles jogadores de futebol franzinos e repentistas

Como por exemplo, o Chalana nos seus melhores anos ao serviço do Benfica, em que com a redondinha colada ao pé esquerdo conseguia fazer as fintas de corpo que o celebrizaram, rodando o tronco num sentido ao mesmo tempo que o pé fazia a bola girar para o lado oposto. 

O Exige tem um pouco do pequeno genial no processo de desenho da curva. 

Tem bom golpe de rins

É esguio o suficiente para mudar de direção num de repente e com notória destreza, dribla fácil as sinuosidades que se lhe deparam, e, dez reis de gente, segue direito à baliza de tempos ligeirinho como o desconcertante canhotinho do Barreiro

Um carro como o Lotus é, portanto, uma mais-valia para os terceiros anéis que ladeiam os troços dos Ralis. 

Em Espanha claramente. 

Em Portugal, se essa hipótese se colocasse, se calhar nem tanto. 

pilotos de proa em Portugal para os quais toda e qualquer concorrência, se possível forte e bem apetrechada, é mais que bem-vinda. 

Motivam-se com isso. 

Sabem que as suas vitórias e bons resultados se valorizam dessa forma. 

Porém também há, em alguns redutos, uma mentalidade diríamos pequeno-burguesa que convive mal com projetos que sendo mais acessíveis financeiramente que os dos R5, possam bater o pé e medir-se de igual para igual com os R5

uns trinta anos, quando éramos uns imberbes liceais carregados de inestética acne, com frequência chocámos com esse género de postura comportamental. 

Nas peladinhas que se organizavam nos sempre desejados furos e em períodos de intervalo, os miúdos pobres das aldeias que calçavam sapatilhas mal coladas e pior cosidas compradas nas feiras, não tinham o direito de alinhar em jogos onde estivessem os jovens ‘bem’ da cidade exibindo o último e mais sofisticado modelo dos ténis Adidas ou Puma, muito menos dar uns toques onde rolasse catchu novinho em folha da Nike. 

A roupa e calçado de marca faziam triagem seletiva. 

E o cenário só tendia a agravar-se se o miúdo pobre fosse mesmo bom de bola e desatasse a driblar melhor ou a marcar mais golos que o jovem ‘bem’

Os Ralis portugueses têm atualmente em alguns redutos, ainda que de forma não assumida, um pouco disto. 

Alguma aristocracia que pode, e ainda bem, comprar roupa de marca como os R5, gosta pouco ou nada de se medir nas peladinhas de asfalto com carros como, entre outros GT ou viaturas de Grupo N bem preparadas, o Lotus Exige, olhado, a partir de cima, como uma emulação das tais sapatilhas baratas de sola gasta e combinação de cores discutível. 

Sobretudo, claro está, se o Lotus mostrar que é bom de bola e tratar o cronómetro com muito mais dotes tecnicistas que os R5

No meio de tudo isto sobram os Ralis. 

Avulta a ideia, a que mais nos interessa, de dotar a modalidade de competitividade. 

De reunir o maior leque possível de carros, independentemente da respetiva condição social, a terem condições para ser bem-sucedidos e lutar pelos melhores resultados. 

É seguramente mais fácil mudar regulamentos que mudar mentalidades. 

Tal como a qualidade de jogo no futebol não se mede pelo preço das chuteiras, um bom campeonato de Ralis não está ligado ao custo dos respetivos bólides. 

É que a continuar a fazer escola nos Ralis portugueses a mentalidade a que acima nos reportamos, um destes dias os jovens ‘bem’ vão olhar para o lado e não encontram ninguém para fazer tabelinhas ou ensaiar trivelas com eles...  

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