segunda-feira, 28 de novembro de 2016

P.E.C. Nº 385: Quando 7m:01,3s funcionam como sinopse de toda uma temporada


Nos Ralis consegue-se sempre encontrar momentos-chave para sintetizar na perfeição o que foi uma época desportiva. 

Momentos que confirmam, por vezes irreversivelmente, uma supremacia. 

Ou momentos que contrariam uma tendência e fazem decisivamente infletir os acontecimentos verificados até então. 

A temporada de 2016 do Campeonato Nacional de Ralis fica marcada pelo domínio quase incontestado de José Pedro Fontes e Inês Ponte

Após os anos de 2013 e 2015 em que o campeonato se desenrolou sob o signo da incerteza até final, a época concluída há poucas semanas começou com Fontes e Ponte no lugar mais alto do pódio e terminou também com o mesmo resultado. 

Os números são claros. 

Em oito provas a dupla do Citroen DS3 R5 decorado a vermelho e branco conquistou oito triunfos (Fafe, Madeira, Vidreiro, Casino Espinho e Casinos do Algarve), foi segunda classificada em duas provas (Castelo Branco e Mortágua) e apenas visitou o lugar mais baixo do pódio em uma única ocasião, nos Açores, onde Ricardo Moura é em condições normais praticamente imbatível (a retumbante vitória do piloto açoriano ali conseguida no início de junho é seguramente um dos momentos do ano para os Ralis portugueses, que nos encheu de satisfação, claro está…), sem esquecer que para a prova insular a Sports & You apenas teve disponíveis duas caixas de velocidade com os rapports mais adequados às especiais micaelenses, e Fontes cedeu-as aos Citroen de Carlos Vieira e Carlos Martins competindo assim algo limitado em termos de performance, em prejuízo das suas próprias ambições desportivas. 

É, aliás, no facto de ter concluído todos os oito Ralis do ano que se começa a desenhar o título de Fontes e Ponte.

A época de 2015 foi pródiga em contratempos (uns maiores, outros de menor importância) mecânicos no DS3 R5 do piloto portuense. 

O título foi conseguido in extremis, quando a meio da temporada as contas até pareciam bastante inclinadas a seu favor. 

No defeso Fontes e a sua equipa terão compreendido que uma das chaves do sucesso era otimizar a fiabilidade da nova viatura entretanto adquirida. 

Ter-se-ão esmerado nos mais ínfimos pormenores quando a montaram, corrigindo o que estava concetualmente menos bem no automóvel anterior. 

A aposta foi correta e certeira. 

O bólide de 2016 foi ao longo do ano um pêndulo mecânico ao nível da melhor tradição relojoeira suíça. 

Garantido esse quesito fundamental, piloto e copiloto puderam concentrar-se em exclusivo nos assuntos da condução e navegação. 

Os críticos de José Pedro (não há campeão sem detratores, e nem Ogier faz o pleno nos favores e simpatia dos adeptos) desvalorizam a temporada de 2016. 

Afirmam que o campeão nacional não teve concorrência ao longo do ano. 

É certo que a ausência de Moura ou a participação condicionada de Miguel Campos lhe facilitaram a vida. 

A presença parcial de João Barros no campeonato talvez lhe tenha aliviado um pouco a pressão. 

Os diversos contratempos mecânicos que apoquentaram Pedro Meireles, bem como o andamento menos incisivo do piloto vimaranense em alguns momentos da época, quem sabe também ajudaram um pouco. 

Porém, não se pode esquecer que Fontes, sobretudo em asfalto, superou-os consistentemente a todos quando estiveram presentes nas etapas do CNR em 2016, a ponto de hoje ser praticamente imbatível em andamento puro nesse tipo de piso. 

Se há una sinopse perfeita da temporada deste ano, ela está nos momentos finais do polémico Rali da Madeira disputado em agosto. 

O momento-chave que, com inusitada clareza, deu a perceber quem seria o campeão nacional de 2016, foi a segunda passagem pela especial do Rosário, décima nona e derradeira classificativa da prova insular. 

Um dos itens em que José Pedro Fontes é fortíssimo, reside, a nosso ver, na perceção da melhor toada a adotar ao longo de um Rali. 

Sabendo que raramente paga dividendos uma cadência completamente ao ataque durante toda uma prova, o piloto do Porto gere muito bem andamentos definindo previamente quando e onde atacar, e quando e onde se deve resguardar mais um pouco. 

, aliás, escrevemos anteriormente sobre essa caraterística de Fontes enquanto piloto, que é, afinal, o primeiro passo e a condição do seu sucesso. 

Na Madeira a controvérsia estalou no decurso da 18.ª prova especial de classificação. 

Uma pedra (propositadamente?) colocada na trajetória do Ford Fiesta de Bruno Magalhães e Hugo Magalhães, então primeiros na estrada e líderes do evento, levou a um pequeno despiste do tetra vencedor do Rali. 

Os homónimos piloto e navegador de imediato saíram do carro.

Sinalizaram aos concorrentes que se lhes seguiam para parar os respetivos automóveis em função da rocha inerte no asfalto, por motivos de segurança. 

Alexandre Camacho e José Pedro Fontes pararam e a organização da prova neutralizou a classificativa. 

Até esse momento o Rali estava a ser um portento de emotividade. 

Cinco pilotos vinham lutando incisivamente pelo lugar mais alto do pódio final instalado no Funchal, alternando os melhores cronos troço após troço, até que sensivelmente pouco depois do meio da prova a batalha ficou reduzida a um trio constituído precisamente por Magalhães, Camacho e Fontes

À entrada (e à saída) da penúltima classificativa do Vinho Madeira, a hierarquia de posições estava definida de seguinte forma: Magalhães continuava na liderança com 1h:55m:51,4s, secundado por Camacho a 6,5 segundos e Fontes a 9,7 segundos

Faltavam 11,37 quilómetros para fazer descer o pano sobre o evento. 

E a partir daqui os acontecimentos precipitaram-se em catadupa.

José Pedro percebeu que a hipótese de penalização a Bruno estava em aberto. 

Caso ela se efetivasse, como de resto veio posteriormente a acontecer, a hipótese de vencer a prova que antes era remota (com andamentos equilibradíssimos, pretender bater Magalhães por dez segundos em pouco mais de onze quilómetros cronometrados seria pouco menos que irrealista) tornava-se agora um pouco mais concreta. 

Ainda assim Alexandre Camacho, ao volante de máquina igualmente competitiva e sempre rapidíssimo nos troços madeirenses que conhece como poucos, estava a 3,2 segundos de distância. 

A contabilidade e a história do Rali Vinho Madeira até esta altura davam conta que Fontes não havia batido Alexandre em nenhuma especial por uma diferença igual ou superior a 3,2 segundos, mesmo nos 19,08 quilómetros de Palheiro Ferreiro, ou nos 13,11 quilómetros de Ponta do Pargo

Para se perceber o enorme equilíbrio de andamentos em prova, na classificativa ‘a sério’ (Ponta do Sol 2, com 7,98 quilómetros) imediatamente anterior aos decisivos 11,37 quilómetros de Rosário 2 e quando a ordem era já para os três candidatos à vitória dar o máximo que pudessem, o portuense apenas tinha conseguido superar o ilhéu por escassos três décimos de segundo

Nesta altura do Rali desconfiamos que Fontes deve ter hesitado muito.

Entre a necessidade pontual e estratégica de preservar uma vitória nas contas do CNR, e a oportunidade, eventualmente única e irrepetível, de indexar o seu nome à lista de vencedores de uma prova com tanta história e prestígio, nacional e internacional, como o Rali Vinho Madeira

Este género de circunstâncias em muitas ocasiões traz para o palco dos Ralis uma dimensão psicológica, cuja boa gestão não raras vezes faz a diferença. 

Os Ralis têm em abstrato muitas semelhanças com a linguística.  

Não basta saber lê-los: é preciso interpretá-los

José Pedro interpretou muito bem as circunstâncias que se lhe depararam, e a possibilidade, talvez única, de vencer uma prova com cunho internacional. 

Competia-lhe, portanto, escrever a redação que o podia colocar na história. 

Adoraríamos saber o que naqueles segundos ou minutos antes de Rosário 2 Fontes e Ponte conversaram. 

De que forma se motivaram para os mais de onze quilómetros que se seguiam. 

De que forma é que tentaram controlar a tensão que terá tomado de assalto o interior do DS3 R5

É nestas horas que cerrar os dentes não chega. 

Se necessário tem que se cravá-los nas gengivas e aguentar a dor

O bicampeão nacional foi simplesmente magistral na classificativa. 

Imprimiu um andamento desconcertante. 

Absolutamente nos limites. 

De pé em baixo

Espremendo a máquina sem pruridos nem remorsos. 

A navegadora foi também perfeita na sua missão. 

Não hesitou no cantar das notas. 

Ditou-as no tom e nas frações de segundo exatas, de forma a induzir confiança ao piloto para atacar. 

Mostrou, se necessário fosse, que pertence à elite dos mais qualificados navegadores portugueses. 

Reunidos estes predicados, há sempre mais probabilidades de se alcançar os objetivos. 

Na tomada de tempos final após a conclusão de Rosário 2, a matemática foi perentória: Fontes e Ponte averbariam o tempo-canhão de 7m:01,3s, seguidos por Magalhães & Magalhães a quatro segundos exatos, não indo Alexandre Camacho e Pedro Calado além do terceiro melhor registo nesta especial a 4,2 segundos dos mais velozes.

O mais difícil estava concretizado para os tripulantes do Citroen DS3 R5: suplantar na hierarquia final do Rali a dupla madeirense aos comandos do 208 T16 R5

As horas imediatamente seguintes à prova seriam férteis em polémica. 

Bruno Magalhães, o piloto mais consistente ao longo do evento, veria adicionar-se ao seu tempo total uma penalização de trinta e cinco segundos (posteriormente confirmada após recurso de tal decisão) que o relegaria para o quarto posto final, privando-o de um ambicionado e inédito quinto triunfo absoluto na Pérola do Atlântico

Fontes e Ponte encontraram no Vinho Madeira, sobretudo no troço Rosário 2, a sua epifania do ano. 

O andamento naquele troço fez revelar, com desarmante clareza, que o título de 2016 seria deles sem grande margem para mais discussão. 

A sinopse da temporada do CNR de 2016 fica em grande medida condensada naqueles pouco mais de sete minutos. 

Um momento arrebatador que acaba por ser a mais perfeita ilustração e o corolário de todo um domínio patenteado ao longo do ano.

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