quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

P.E.C. Nº 386: Ganhar espreitando «pelo buraco da fechadura»


A sua passagem pelo campeonato do mundo de Ralis foi algo efémera. 

Terminou prematuramente, tombada pela tragédia. 

Markko Martin foi um piloto que sempre apreciámos. 

Discreto e extremamente profissional, entrou a pulso na alta-roda dos Ralis para se afirmar num tempo em que os carros com as especificações WRC estavam a tomar conta do mundial da modalidade. 

Entre 1997 e 2005, enfrentou um elenco de luxo a nível de adversários. 

Contracenou, nessas temporadas, com muitos dos mais famosos nomes da história do mundial de Ralis. 

Foi por vezes figurante

Foi noutras ocasiões ator secundário

Mas teve também oportunidade, por mérito próprio e na decorrência do seu talento para conduzir, de um bom par de vezes assumir o papel de protagonista

Os registos dão conta de cinco triunfos à geral em provas pontuáveis para o campeonato do mundo, dentro dos sessenta e oito eventos que cumpriu na mais importante competição da modalidade. 

Conquistou em dezoito ocasiões o direito a visitar lugares do pódio

Mostrou-se o mais rápido em cento e um troços de entre todos os que disputou no WRC

Averbou no seu percurso mundialista duzentos e sete pontos

Como certificado da sua valia foi piloto oficial ao serviço da Subaru, Ford e Peugeot

Números, portanto, com dimensão considerável. 

A temporada de 2003 funcionou como momento de transição no departamento de competição da Ford

Após perder no final da época anterior McRae e Sainz a favor dos rivais da Citroen, e sem ter nas suas hostes um plantel de pilotos tão notável como, além da marca do double chevron, a Peugeot ou a Subaru, os comandos por Wilson, Loriaux e, a meio do ano, Capito, fizeram-se rodear de um corpo de pilotos jovem mas ambicioso, constituído por Martin, Duval e Hirvonen, juntando-se-lhes Latvala em quatro provas nesse ano. 

Markko aspirava naturalmente à primeira vitória à geral em etapas do campeonato do mundo. 

A Grécia e respetivos troços marcados pela extrema dureza do piso, pareciam casar bem com as características de condução do homem vindo da Estónia. 

Havia sido na Acrópole, dois anos antes, que tinha obtido pela primeira vez o tempo mais veloz numa classificativa em provas do WRC

No ano imediatamente anterior (2002) os registos dão conta de ter liderado até final da primeira metade do evento, e conseguido ser o piloto que venceu mais classificativas de entre todos os concorrentes em prova. 

Até à etapa grega do calendário do WRC em 2003 (sexto evento da temporada), não se pode dizer que as coisas tivessem corrido especialmente de feição para Martin

Aos quartos lugares finais nas duas primeiras provas do ano (Monte Carlo e Suécia) e ao sexto posto em que concluiu a terceira etapa do calendário (Turquia), seguiram-se dois Ralis (Nova Zelândia e Argentina) nos quais não marcou pontos, pelo que se apresentou no porto de Pireu à partida para o evento helénico na sexta posição do campeonato de pilotos, com treze pontos somados. 

Uma posição de largada para os troços iniciais que lhes era favorável (há treze anos a questão já adquiria foros de importância…) permitiu aos motivados Markko Martin e Michael Park começarem o Rali da melhor forma, chegando a liderança logo após a conclusão do segundo troço (suplantando na classificação geral Duval e Prevot, seus colegas de equipa) para não mais abandonar tal posição até final. 

Porém, está inscrito na matriz dos Ralis que uma boa vitória nunca o é sem dose considerável de drama e emoção a acompanhá-la. 

No final da quarta classificativa do Rali de Acrópole disputado em 2003, a Ford dominava a prova. 

Martin liderava na frente de Duval pela escassa margem de 1,4 segundos, aparecendo na terceira posição um combativo Rovanpera, melhor Peugeot, já a 15,2 segundos. 

Como normalmente sucede naquelas paragens, as duras classificativas do país helénico iam transformando a prova de diversos concorrentes numa verdadeira tragédia grega

Poucos concorrentes passavam incólumes a saídas de estrada ou contratempos mecânicos. 

No entanto, os comandados de Malcolm Wilson pareciam sobreviver às contingências do Rali acercando-se dos dois lugares mais altos do pódio na fase inicial do evento. 

Porém, nos Ralis muitas vezes tudo se precipita de um momento para o outro. 

O quinto troço do evento estava marcado no caderno da prova como o mais extenso a percorrer pela caravana. 

Os 34,68 quilómetros de Elatia-Zeli, a palmilhar agora em primeira passagem, prometiam assumir-se como uma grande dor de cabeça

Ou, com mais propriedade, um verdadeiro trabalho de Hércules

Que o digam Duval, que após um erro com as notas saiu irremediavelmente de estrada, Burns que perdeu a terceira velocidade na classificativa cedendo meio minuto para o vencedor do troço, ou mesmo McRae que na passagem por um curso de água viu o motor do Xsara WRC calar-se por uns instantes (ainda assim o desconcertante escocês realizaria o segundo tempo mais veloz na conclusão da especial)

Harri Rovanpera venceu o terceiro troço consecutivo e dessa forma conseguiu aproximar-se da liderança do Rali, embora no parque de assistência muitos certamente terão cogitado se o finlandês não seria mesmo o novo comandante da prova. 

A dúvida, a par do muito pó, pairava no ar por esta altura do evento. 

Faltava Martin e Park chegarem à tomada de tempos final de Elatia-Zeli 1

O estoniano e o britânico concluíram, então, a especial

E de que maneira! 


Com uma burqa de cor branca a cobrir quase na totalidade o rosto do Focus WRC

O comum dos adeptos e os elementos mais diretamente ligados ao fenómeno do mundial de Ralis, nesta altura convictamente apostaram singelo contra dobrado em como a dupla do Ford tinha perdido muito tempo e caído nas profundezas da classificação da prova. 

Não era possível conduzir às apalpadelas e realizar em simultâneo um bom crono

O fascínio dos Ralis reside muito, entre diversos outros aspetos, na forma como desconstrói convicções, por vezes em meras frações de segundo. 

É o caso no episódio que nos encontramos precisamente agora a relatar. 

Nestes quase trinta e cinco quilómetros Martin e Park escreveram, há treze anos, uma (há tantas, felizmente…) das mais belas partituras da história deste desporto. 

Rodando, claro está, a fundo, a certa altura, após um ressalto um pouco mais violento e sem nada que o fizesse prever, a parte inferior frontal do Ford ‘aterra’ no chão, partindo o trinco fixador do capô do carro. 

Com a deslocação do ar a peça eleva-se grudando-se ao vidro frontal. 

Tapa praticamente por completo a visibilidade ao piloto e navegador. 

Pelas contas da dupla de tripulantes foram pelo menos vinte quilómetros que terão cumprido nestas circunstâncias. 

Michael Park, após a peripécia, já no parque de assistência foi lapidar na descrição sobre os acontecimentos. 

Com muitos quilómetros de classificativa por cumprir, no momento inicial após o levantamento do capô piloto e navegador tiveram alguns segundos de dúvida e hesitação. 

Uma paragem para compor a ocorrência equivaleria, de imediato, à perda de pelo menos meio-minuto entre parar o bólide, sair dele, identificar a origem do problema, (procurar) solucioná-lo, reentrar no veículo, recolocar cintos de segurança e retomar a marcha. 

Parar seria… perder! 

Colocaram então em (acelerada…) marcha o Plano B: a (literal) fuga para a frente. 

Continuando no troço como se (quase) nada fosse. 

O navegador descreveria a situação que, inusual, assumiu contornos trágico-cómicos

Martin, sentado em posição mais alta, praticamente nada via à sua frente. 

Park, sentado mais em baixo no automóvel, pela pequena fresta/ranhura visual agora existente na parte inferior do vidro frontal (percetível nas fotos disponíveis no presente trabalho) apenas alcançava trinta ou quarenta centímetros à frente do automóvel. 

Markko conduziu minutos a fio 'vendo' pelos olhos de outrem. 

Michael foi absolutamente genial navegando nestas circunstâncias. 

Na história do WRC há poucos tributos tão sublimes ao trabalho dos navegadores como nesta situação. 

Ter de redobrar a atenção no caderno de notas que, com um campo visual diminuto, adquire redobrada importância, e em simultâneo olhar para a estrada funcionando como guia para o piloto que quase nada vê. 

Num cenário de tamanha dificuldade, seria de esperar uma perda de tempo muito grande do Ford n.º 4 para os mais lestos em Elatia-Zeli 1

Uma coisa, sem espanto, talvez na ordem dos minutos. 

Pois bem, após cerca de uma vintena de minutos a competir metaforicamente apoiados numa espécie de Bastão de Hoover sobre rodas, a tomada final de tempos, pouco dada a emoções, dava friamente conta do impensável: Martin e Park realizaram a quarta melhor marca no troço (24m:27,9s) a escassos seis segundos exatos de Harri Rovanpera e Risto Pietilainen, ficando Colin McRae e Derek Ringer na segunda posição ao concluirem com menos 3,5 segundos que a dupla tripulante do Focus WRC, e Marcus Gronholm navegado por Timo Rautiainen no terceiro lugar averbando o tempo total final de 24m:26,1s. 

Não é fácil encontrar palavras para descrever uma façanha desta dimensão. 

O talento de Martin ao volante e a sabedoria de Park na arte da navegação ajudam a compreender a proeza mas não justificam tudo. 

Trata-se de um daqueles episódios de absoluta transcendência nos quais tudo se conjuga para que a coisa funcione mal, mas em que o destino, a audácia e a crença encarregam-se teimosamente de contrariar quaisquer presságios negativos. 

A partir daqui o passeio rumo à primeira vitória do estoniano e do britânico no campeonato do mundo de Ralis tornar-se-ia uma mera formalidade. 

Percebendo e agarrando com unhas e dentes a oportunidade que a prova lhes estava a conceder, ganhariam categoricamente na Acrópole há treze anos suplantando adversários como, note-se bem, Sainz, Solberg, Burns, Makinen, Rovanpera, Panizzi, McRae, Auriol, Gronholm, Loeb, Loix, Duval, Schwarz ou Gardemeister, numa altura em que começavam a despontar no firmamento do WRC nomes como Latvala, Meeke ou Hirvonen. 

Versátil na condução e sempre empenhadíssimo no serviço às equipas onde militou, Markko materializou este homérico triunfo numa espécie de candidatura anunciada a um título mundial que muitos lhe auguravam. 

Sempre com Park a declamar ao seu lado, conseguiu na carreira averbar cinco triunfos à geral em provas do WRC sempre ao serviço da Ford (cronologicamente: Acrópole, 2003; Finlândia, 2003; México, 2004; Córsega, 2004; Catalunha, 2004)

A aventura desta dupla aparentemente inquebrantável no campeonato do mundo terminaria de forma brutalmente abrupta. 

Após doze anos sem perda de vidas humanas a lamentar em eventos do WRC, a última classificativa do Rali da Grã-Bretanha de 2005, quando Martin e o seu navegador se encontravam ao serviço da Peugeot (no fracassado projeto do 307 WRC) e consolidados no sexto lugar da classificação na prova ainda sonhavam com a quinta posição final, ditaria a morte imediata de Michael Park após saída de estrada do carro vermelho e branco de encontro a uma árvore. 

Markko sobreviveu incólume ao acidente, mas as mazelas emocionais não sararam. 

O desfecho trágico que colocou fim a uma parceria desportiva e a forte amizade pessoal, determinou a decisão inabalável do estoniano em se retirar do escalão máximo dos Ralis enquanto piloto, e apenas permaneceu ligado de forma indireta e muito discreta à modalidade ao apoiar a carreira de pilotos seus compatriotas, dos quais avulta como exemplo cimeiro Ott Tanak. 

Além de uma empresa de transportes familiar, hoje gere também a MM Motorsport que aluga e prepara algumas unidades do Ford Fiesta R5. 

Rezam as crónicas que nas cerimónias fúnebres do seu amigo Michael, terá dito, emocionado, numa magistral elegia à importância dos navegadores que «o Michael não foi o meu navegador: eu é que fui o seu piloto»

Recordando a bíblica vintena de quilómetros de Elatia-Zeli na Grécia em 2003, tal frase faz por motivos óbvios inteiro sentido.






AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=12155&entry=&car=
- http://www.xtdev.com/auto/gallery/news/030606_rallyAcropolis_MarkkoMartin_MichaelPark_FordFocusWRC.jpg
http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=12156

Sem comentários:

Enviar um comentário