P.E.C. Nº 389: Palavras sem filtro


pouco mais de um mês Ricardo Teodósio falou. 

Quando o piloto algarvio fala, por norma tem coisas interessantes para dizer. 

Acreditamos que as palavras do homem da Guia geram com alguma frequência um certo desconforto no establishment dos Ralis nacionais, que não aprecia grandemente que determinadas coisas sejam ditas no espaço público. 

por isso, por esse sentido de uma certa subversão, ainda que não deliberada, da ordem instituída, já é motivo para simpatizarmos com Teodósio

Num meio onde proliferam os silêncios de conveniência ou a comunicação cifrada, o homem do sul do país dá uma nota de dissonância. 

Fala com o coração junto às cordas vocais, da mesma forma que conduz com batimentos cardíacos a bombarem na palma das mãos. 

É espontâneo a falar, como espontâneo é a conduzir. 

É difícil adivinhar o que tem a dizer, tal como nunca se sabe muito bem o que pode fazer (ou, se quisermos, criar…) antes, durante e depois de uma curva. 

Por ser alguém como uma linguagem simples e desbragada, polvilhada a espaços com uma pitada de calão, os adeptos reveem-se muito na postura de Teodósio

Sentem-no com a proximidade de alguém que lhes é comum. 


Concedendo entrevista à AutoSport, em jeito de balanço quanto ao que foi a (sua) época de 2016, não deixou, como aliás lhe é caraterístico, de abordar o momento geral dos Ralis em Portugal. 

Desengane-se quem pensa que dá a palavra a Teodósio tendo na mão um caderno de notas prévio onde estão sinalizadas as perguntas a realizar. 

Em discurso direito perante o ecrã e/ou microfone, por regra brota-lhe opinião que soa tão natural quanto o ver sacar um desconcertante scandinavian flick na abordagem a um gancho. 

Não significa isto que Ricardo Teodósio tenha sempre razão. 

Ou que as palavras, ditas de determinada forma, não possam por vezes trair a sua espontaneidade natural, levando-o a ser incorretamente interpretado. 

Na conversa que manteve com a AutoSport, há desde logo uma divergência de base nossa quanto ao que expressou, com honras de destaque, relativamente à prestação dos pilotos portugueses quando alinham no exterior em competições internacionais. 

A história demonstra que quando os nomes mais fortes dos nossos Ralis se abalançam para competir lá fora com padrões mínimos de competitividade, conseguem quase sempre bons resultados, 

Foi assim com António Borges nos idos de setenta. 

Ou com António Coutinho no dealbar dos anos noventa. 

Como esquecer em meados dessa década, os feitos internacionais de Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva

Ou já, no presente século, a grande aventura de Miguel Campos, Carlos Magalhães e a Peugeot Portugal no Europeu de Ralis? 

Armindo Araújo e Miguel Ramalho são bicampeões do mundo de Ralis. 

Bruno Magalhães e Bernardo Sousa têm vitórias em provas internacionais inscritas nos respetivos curricula

O problema dos pilotos portugueses não é, pois, o facto de irem lá fora. 

É irem pouco lá fora. 

E nem sempre nas condições ideais para se medirem de igual para igual com os seus adversários. 

Nesse particular, não comungamos do ponto de vista de Teodósio

Na entrevista dada à estampa pelo sítio online da AutoSport há, porém, diversas passagens que são interessantes e, aliás, encontram eco em diversos trabalhos anteriormente publicados neste blogue. 

A temática dos ‘treinos’/’trabalho de casa’ (que deve ser interpretada, parece-nos, enquanto reconhecimentos ilegais) que Ricardo aflora e cuja prática reiterada dentro da modalidade no nosso país é problema estrutural que ninguém pretende (pelo menos tentar) resolver, acaba por se tornar num dedo na ferida que se reveste sempre de atualidade. 

Os anos passam, mas o ‘vício’ generalizado permanece e passa sempre incólume. 

Todos o conhecem. 

Quase todos se calam quando o assunto são reconhecimentos ilegais, numa espécie de pacto de silêncio coletivo

Alimenta-se pela calada um tabu relativamente à questão, de que muitos beneficiam na exata medida em que prevaricam abusando das passagens pelos troços antes dos Ralis. 

A autenticidade do homem do sul do país provavelmente casa mal com o silêncio ensurdecedor a que o tema é votado nos parques de assistência dos Ralis portugueses. 

O sistema não apreciará que seja um dos seus a falar demais

Será por isso, por as palavras lhe saírem sem filtro, que Teodósio é em alguns setores olhado de soslaio e com desconfiança. 

Houve na entrevista em apreço outros pomos de desencanto. 

A ‘gasolina’, por exemplo, foi um deles. 

O combustível especificamente criado para automobilismo tornou-se (literalmente) um produto refinado, criado segundo altos padrões de pesquisa e desenvolvimento laboratorial. 

A coisa deixou de ser ‘meter e andar’

A cartografia e desempenho dos motores dependem hoje em grande medida das caraterísticas do carburante, que se tem assumido como vetor primordial de competitividade como pneus, suspensão ou aerodinâmica. 

Sugerir-se que não há diferenças apreciáveis nos diversos combustíveis para competição (e, claro, nos respetivos preços) é o mesmo que não compreender a diferença entre lenha e pellets

Nessa medida, a comercialização das gasolinas para Ralis em Portugal tornou-se um negócio rentável e apetecível, onde confluem interesses de vária ordem. 

Interesses que a ninguém interessa verdadeiramente afrontar. 

Quem tem a incumbência de organizar campeonatos de Ralis deveria, no plano dos princípios, ter como preocupação primeira regulamentar de molde aos respetivos concorrentes tendencialmente competirem em igualdade de condições. 

Num enquadramento ideal, a FPAK após concurso público feito segundo regras claras e escrutináveis, dentro de preços controlados forneceria combustíveis idênticos a todo o plantel da modalidade em Portugal. 

O custo por quilómetro em matéria de gasolina sairia mais barato a todos os concorrentes. 

E nesse quesito a todos era garantido previamente que competiriam em plena igualdade de circunstâncias com os demais adversários. 

É relativamente a estes pequenos (grandes…) detalhes que Ricardo Teodósio se insurge na entrevista dada à AutoSport

Com o desapego e frontalidade que o caraterizam. 

Numa linguagem acessível, genuína, simples e que todos compreendem, mesmo os que fingem por conveniência não a compreender. 

uns anos havia alguém com as mesmas caraterísticas no desporto português: o ciclista Cândido Barbosa

Era conhecido por sem receios dizer umas verdades

Ficou conhecido como o ciclista do povo

Teodósio tem também algo disso: de piloto do povo

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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