P.E.C. Nº 390: Material de propaganda...


Acasos da vida levaram-nos, há algumas semanas, de encontro ao local reproduzido na imagem supra

Numa pequena vila do interior do país, edificada em paragens beirãs, a meio de um pequeno passeio pedestre deparámo-nos à distância com uma construção em ruínas. 

Até aqui tudo normal. 

Prédios a cair aos bocados é infelizmente visão frequente neste país. 

No entanto havia ali algo a merecer a nossa atenção e interesse. 

Umas fitas em vermelho berrante a sinalizar o perigo vedando também a entrada ao interior dos escombros, de imediato nos soaram familiares. 

Aproximámo-nos, movidos pela curiosidade. 

E os nossos presságios, claro está, confirmaram-se poucos segundos depois. 

As lendárias fitas limitadoras da circulação do público no Rali de Portugal, em certo sentido elas próprias parte da iconografia da prova, ali estavam a mostrar-se a quem as quisesse ver. 

Fazemos notar que a citada vila teve importantes ligações à prova há cerca de um quarto de século, mas desde então a caravana nunca ali voltou a passar, mesmo que em percurso de ligação. 

Seja entre 2007 e 2014 no Baixo Alentejo e Algarve, seja a partir de 2015 a norte do Douro, dista várias centenas de quilómetros dos locais nevrálgicos do evento, designadamente das classificativas que se têm percorrido na última década. 

No entanto as fitas ali estavam, talvez porque, suposição nossa, na povoação em causa haja alguém ligado à organização do Rali. 

Aproximámo-nos do local e reparámos na inscrição ‘Turismo de Portugal’ estampada em tais faixas plásticas. 

A conclusão é óbvia: as mesmas são oriundas dos anos em que a prova se disputou a Sul do país. 


Envoltos nestes pensamentos, recordámos então mentalmente o significado destes pedaços de plástico estreitos, avermelhados e flexíveis, sobretudo naquilo que eles têm de conteúdo propagandístico alimentado ad nauseam pela organização do Rali de Portugal ao longo dos últimos anos, dramatizado a partir do momento em que foi oficialmente confirmada a passagem do evento para Norte. 

Reportamo-nos à narrativa focada no público. 

Reportamo-nos, também, às fitas, redes, ou a espaços a alguns Marshall com vocação repressiva e mentalidade de GNR pançudo dos anos sessenta, que simbolizam o controlo da massa anónima que conhecemos como público

Reportamo-nos ao público que é vendido no exterior e cá dentro por Carlos Barbosa como o grande problema que se depara ao ACP enquanto organizador do Rali de Portugal

O mesmo público, aliás, que sendo um problema já se afigura contudo da maior utilidade a Barbosa, à Mouton ou ao Todt para distribuir sorrisos e receber banhos de multidão em Fafe. 

É do público e do respetivo comportamento que, segundo os postulados e o pensamento expresso por Barbosa, depois reproduzidos pavlovianamente por uma série de outros agentes ligados a este desporto, depende a continuidade do Rali de Portugal no elenco de eventos pontuáveis para o campeonato do mundo da modalidade (uma falácia repetida muitas vezes não deixa por isso de ser falácia)

Um público comercializado de acordo com uma conotação negativista, sempre potenciador de complicações quanto à segurança ao redor da prova. 

Mas curiosamente já é esse mesmo público que funciona como o garante da ‘paixão’ que há em Portugal pelos Ralis, uma marca diferenciadora que, no léxico do mais alto dignatário da organização do evento, tem afirmado e mantido nossa prova no calendário do WRC

Bipolaridade pura e notória: o comportamento do público é uma ameaça para a continuidade do Rali de Portugal no campeonato do mundo, ao passo que o comportamento e ‘paixão’ do público é o fator que tem jogado a favor das pretensões do Rali de Portugal em continuar integrado no campeonato do mundo. 

, e ainda bem, de facto uma enorme paixão em Portugal por esta modalidade, sobretudo na sua expressão maior. 

Uma paixão para cada vez mais ser consumada platonicamente

De acordo com o moralismo empedernido de Barbosa e afins. 

Com muitos cintos de castidade como os que, espalhados nos últimos anos pelos troços do Rali de Portugal, encontrámos há semanas perdidos numa vila do interior do país no decurso de um passeio a pé…

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Nota: a relação esquizofrénica que a organização do Rali de Portugal mantem com o público não está nos locais onde as pessoas não devem e por isso não podem estar. Reside nos locais onde poderiam estar em perfeita segurança e em que devido a uma paranoia securitária sem quartel são impedidas de o fazer. 


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