P.E.C. Nº 395: Yaris-Matti Latvala


 1 

Dois mil e dezassete.

Campeonato do Mundo de Ralis.

Duas provas já disputadas.

Duas desistências após acidente.

Ambas quando se encontrava confortavelmente instalado no comando das mesmas.

Não nos referimos, ainda que o possa parecer, a Jari-Matti Latvala.

Reportamo-nos a Thierry Neuville, vice-campeão do mundo de Ralis em 2016.

Dois mil e dezassete.

Campeonato do Mundo de Ralis.

Duas provas já disputadas.

Dois pódios.

Liderança na classificação de pilotos.

Zero erros.

Não nos referimos, ainda que o possa parecer, a Sébastien Ogier.

Reportamo-nos a Jari-Matti Latvala, sexto classificado final no mundial de Ralis de 2016.

Dois mil e dezassete.

Campeonato do Mundo de Ralis.

Duas provas já disputadas.

Um erro em cada uma delas.

Segundo lugar no mundial de condutores.

Não nos referimos, ainda que o possa parecer, a Thierry Neuville.

Reportamo-nos a Sébastien Ogier, tetracampeão do mundo de Ralis entre 2013 e 2016.

 2 

O WRC em 2017 está ao rubro.

Verdades que nos fomos habituando a interiorizar como consolidadas nas temporadas anteriores, como o domínio de uma só marca ou a supremacia de um único piloto, têm vindo a ser postas em causa.

Ainda que um juízo definitivo sobre aquilo que poderá valer a presente época prudentemente só deva ser feito lá mais para a frente, há dados que nos permitem para já afirmar que neste novo mundial pode estar a fórmula certa para devolver a modalidade de encontro à popularidade de outrora.

Nenhum dos construtores parece ter encontrado nas entrelinhas dos regulamentos o elixir da competitividade que lhe permita garantir notória hegemonia sobre a concorrência.

Até ao momento, volvidos dos Ralis (Monte Carlo e Suécia) desde o início do ano, já todas as equipas oficiais venceram troços.

Dos pilotos que as integram, apenas Hanninen (Toyota), Paddon (Hyundai) e Meeke (Citroen) é que ainda não conseguiram mostrar-se os mais velozes numa classificativa, possivelmente devido ao facto, sobretudo relativamente aos dois últimos, de terem sofrido percalços que condicionaram bastante as respetivas prestações.

 3 

Como referimos acima, Jari-Matti Latvala lidera atualmente a classificação de pilotos do mundial de Ralis.

Na sua já longa carreira no WRC (171 participações; 17 vitórias), apenas por uma única vez (precisamente há três anos, após o Rali da Suécia de 2014) e apenas durante um único Rali é que conseguiu tal façanha.

É sempre difícil descrever e explicar o nórdico.

Quando se esperam dele grandes acometimentos incorre em erros de palmatória pouco compagináveis com um piloto com o seu estatuto e qualidade.

Quando está na mó de baixo, surpreende depois em várias ocasiões averbando com autoridade tempos-canhão em classificativas, ou realizando Ralis de princípio a fim com grande consistência de andamento.

Nesta bipolaridade exibicional que tem marcado a sua carreira, Jari-Matti parece estar em 2017 a conviver de forma salutar com dois vetores, em certo sentido antagónicos, que enquadram o seu posicionamento dentro da novel equipa Toyota Gazoo Racing.

Desde 2008, quando ingressou na equipa oficial da Ford, é a primeira vez em dez anos que tem a pressão e responsabilidade de ser claramente o líder de um projeto dentro do WRC.

Mas por outro lado, paradoxalmente, também é a primeira vez em dez épocas que não integra uma equipa que entre, pelo menos para já, abertamente e de forma assumida na discussão pelas vitórias em cada Rali ou pelo campeonato no seu conjunto.

Será seguramente interessante perceber, nas próximas provas, como é que o finlandês lidará com este novo contexto em que se encontra, e que respostas dará aos rivais mais diretos na defesa da sua liderança da tabela de pilotos.

 4 

Como há muitos anos o slogan advertia, em matéria de Ralis ao mais alto-nível a Toyota veio para ficar.

Com o triunfo conseguido agora na Suécia, a marca nipónica quebrou um jejum em termos de subida ao lugar mais alto dos pódios do WRC (anterior último triunfo: Rali da China/1999) que durava há 6.355 dias, ou, se o caro leitor preferir, 908 semanas.

Com a vitória na especial de abertura do evento sueco, o construtor japonês colocou fim a 5.922 dias, ou, se o caro leitor preferir, 846 semanas, sem as suas criações se mostrarem as mais velozes após a tomada de tempos num troço de provas mundialistas (derradeiro melhor crono em classificativas: Janne Tuohino, no Rali da Grã-Bretanha/2000).

Se houvesse necessidade de um elemento (resultados…) para validar competências relativamente à estrutura às ordens de Tommi Makinen, após Monte Carlo e Suécia ele está encontrado.

 5 

O WRC do corrente ano está a revelar também outras curiosidades.

Sébastien Ogier encontra-se em segundo lugar na classificação de pilotos, posição que nas últimas quatro temporadas (as correspondentes aos seus quatro títulos de campeão do mundo) apenas conheceu em duas ocasiões: após o Rali de Monte Carlo em 2013 e o supracitado Rali da Suécia em 2014 (nas duas vezes arrebatou a liderança da tabela de pilotos para si logo no evento seguinte).

Numa análise à prova disputada na Suécia há poucos dias, salta à vista um facto incomum: o tetracampeão do mundo não venceu qualquer especial.

Não contabilizando a temporada de 2012 (o ‘ano zero’ que se viria a revelar crucial para o desempenho ‘académico’ de excelência patenteado desde 2013 até agora) em que competiu aos comandos de um Skoda Fabia S2000, já desde o longínquo Rali da Alemanha de 2010 que Ogier não ficava em branco em matéria de triunfos em pelo menos um troço numa prova do mundial da modalidade.

Aliás, desde que tem o estatuto de piloto oficial, apenas em três ocasiões (Suécia/2010; Alemanha/2010; Suécia/2017) é que o gaulês não juntou qualquer parcela de somar ao impressionante número de 482 triunfos em classificativas que conseguiu até hoje.

 6 

A temporada de 2017 ainda vai no adro, mas as hostes francesas não têm, para já, grandes motivos para sorrir.

Mal habituado ao domínio avassalador dos seus pilotos nas últimas treze temporadas do campeonato do mundo, o hexágono vai ensaiando nos Ralis algo que os brasileiros tentam há mais de vinte anos na F1.

Se do lado de lá do Atlântico se vem alimentando, ano após ano, temporada após temporada, uma esperança quase sebastiânica em encontrar o ‘novo Senna’, na França está-se a trabalhar para preparar o pós-Ogierismo.

Digamos que no país europeu há uma esperança quase sebastiânica em encontrar um ‘novo…. Sébastien’.

Ogier ainda tem, em condições normais, mais algumas temporadas (e triunfos…) para disputar no WRC.

Porém, um dia, ainda não se sabe quando, a lei natural das coisas vai-se fazer cumprir e convém, dentro do ponto de vista francês, haver alguém em condições de dar de imediato continuidade à sequência de títulos conquistados pela nação tricolor.

Nesta matéria o último ano revelou dois erros de casting: Camilli e Lefebvre (este último continuando em 2017 aparentemente apostado em não mostrar credenciais que o recomendem em especial ao estatuto de piloto oficial).

Ainda analisando a prestação francesa no novo campeonato do mundo de Ralis, a Citroen após indicadores muito positivos nos testes de pré-temporada esteve alguns furos abaixo das expetativas em Monte Carlo e na Suécia.

Em ambas as provas Meeke e Lefebrve não atinaram muito bem com os limites da estrada, queixaram-se de dificuldades em conduzir o C3 WRC no limite, pelo que muito trabalho espera a estrutura francesa para retomar a competitividade que com frequência lhe vimos em 2016.

 7 

A ausência da Volkswagen após um quadriénio de domínio avassalador no mundial, terá contribuído decisivamente para deixar Andreas Mikkelsen, terceiro classificado final na época do ano transato, apeado para a temporada ora em curso.

Apreciamos as virtudes do norueguês enquanto piloto e a respetiva margem para progredir nesta modalidade, sobretudo num patamar tão exigente como o campeonato do mundo.

É incongruente estar de fora, enquanto, à exceção da M-Sport/Ford, três equipas oficiais do WRC mantém sob contrato pilotos que oferecem à partida menos garantias de competitividade que o norueguês.

 8 

No atual ecossistema do mundial de Ralis estão, portanto, a acontecer diversos fatores de incerteza e novidade que fomos sublinhando ao longo das linhas anteriores.

E isso, do ponto de vista dos intervenientes ligados à modalidade (e sem embargo da tragédia ocorrida em Monte Carlo que provocou a perda de uma vida humana a lamentar), só pode ser bom…

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