P.E.C. Nº 398: Diz que é uma espécie de reconhecimentos...


Começamos este trabalho revelando uma dolorosa novidade ao caro leitor. 

Ao contrário do que pode parecer, os vídeos colocados mais abaixo neste trabalho não retratam uma qualquer prova nacional de Ralis. 

Parece

De facto, parece. 

Mas, lamentamos desapontá-lo, não se referem a Ralis que se tenham disputado recentemente no nosso país. 

, é certo, diversos carros muitíssimo parecidos com os Mitsubishi de grupo N

Vê-se no interior de alguns automóveis os roll bar que por norma se encontram dentro de viaturas especificamente preparadas para competição. 

Em alguns casos, parece também ser possível observar em tais carros cintos de competição para piloto e navegador. 

Como nos Ralis, visualiza-se nas citadas imagens powerslides controlados, atravessadelas mais ou menos no limite e os indispensáveis piões que a noção de espetáculo necessariamente agradece. 

No entanto, acredite caro leitor, não são imagens de um Rali. 

São imagens de reconhecimentos de um Rali. 

Reconhecimentos à portuguesa, pois então! 

Numa modalidade que cronicamente se debate com problemas quanto à composição das listas de inscritos nas provas nacionais (em abstrato, por falta de meios financeiros e de investimento neste desporto), as ironias, as contradições e os paradoxos não podem ser maiores quando se olha para o luxuoso parque automóvel utilizado por vários pilotos para fazer reconhecimentos ao percurso dos Ralis do CNR

Parte-se desde logo de um equívoco gritante. 

"Isto" que as imagens infra dão a conhecer não são reconhecimentos, pelo menos na ideia de reconhecimentos enquanto trabalho de identificação e recolha de notas a um determinado percurso cumprindo as regras gerais de trânsito. 

O que se pode verificar com a visualização das imagens em apreço são treinos e não reconhecimentos, mesmo dando de barato que em Fafe a esmagadora maioria do pelotão do CNR já conhece o desenho daqueles troços como os sinais da palma das respetivas mãos, e se calhar até quase prescindirá das duas clássicas passagens para tirar e confirmar notas. 

Do ponto de vista dos conceitos, o que se perceciona dos vídeos em causa está bem mais próximo de uma sessão de testes (à qual só falta mesmo o carro de Ralis ‘a sério’) que de reconhecimentos para cartografar o terreno. 

Salta à vista, até, outro aspeto que diz muito sobre o atual estado da modalidade no nosso país. 

carros substancialmente melhores nos reconhecimentos (se é que se lhes pode chamar assim) ao Rali Serras de Fafe em 2017, do que aqueles que foram utilizados por alguns dos melhores pilotos do mundo quando fizeram os reconhecimentos do Rali de Portugal em 2016 e nos anos anteriores. 

Viva o "luxo"

Crise

Qual crise? 

Não está em causa, repare-se, o facto de vários dos melhores pilotos portugueses se socorrerem de bons carros para o trabalho preparatório de dada prova. 

Os regulamentos permitem: eles limitam-se a aproveitar tal faculdade. 

O que tem de ser questionado é se não há, logo antes dos Ralis propriamente ditos irem para a estrada, uma absoluta subversão do princípio de a todos os concorrentes serem oferecidas oportunidades rigorosamente iguais no momento de preparação das provas. 

É totalmente diferente reconhecer-se (ou melhor: treinar-se) um Rali aos comandos de um Mitsubishi com quatro rodas motrizes e visivelmente algum apuro mecânico, que sentado num banalíssimo furgão comercial. 

Não tem comparação passar-se num troço antes de uma prova sem preocupações em estragar material e a adquirir já algum ritmo competitivo, ou através de um normal carro "civil" que adorna nas curvas, sai delas aos “bochechos”, e nem contrabrecagens para “aquecer” braços possibilita. 

Não basta o queixume generalizado (aliás, melhor escrevendo, muito pouco generalizado) dos reconhecimentos “ilegais” desequilibrarem a balança a favor de quem passa à margem dos regulamentos repetidas vezes nas classificativas antes dos Ralis irem para a estrada. 

Em nome da legalidade e com o beneplácito regulamentar, os reconhecimentos “legais” assumem-se eles próprios como fator de diferenciação entre pilotos no trabalho preparatório para cada Rali. 

Não deixa de ser profundamente incongruente a entidade (FPAK) que tutela os Ralis intervir com denodo em todas as matérias que dizem respeito à modalidade, regulamentando com frenesim coisas como o valor das inscrições nas provas ou essa singularidade que dá pelo pomposo nome de Lista de Notoriedade Nacional, e não se sentir no dever, talvez até mesmo na obrigação, de padronizar, de forma igualitária para todos os pilotos, as caraterísticas dos automóveis utilizados para realizar reconhecimentos. 

Não há nesta análise, note-se, a ideia de gizar um modelo de campeonato nacional assente numa espécie de “sociedade sem classes”

, com toda a naturalidade, pilotos e projetos com mais e melhores meios para atingir o sucesso que vários dos seus adversários. 

Sempre assim foi. 

Sempre assim será. 

Em Portugal ou em qualquer outro ponto do globo onde se disputem Ralis. 

Mas se o princípio é válido e justificável para as provas propriamente ditas, dificilmente se aceita que se acentue logo a partir do momento em que se liga o motor de um automóvel para reconhecer um Rali, assim se desequilibrando ainda mais aquilo que à partida e por definição já se encontra desequilibrado aquando da luta contra o cronómetro. 

Se houvesse um devir moral alargado neste desporto, talvez estes mulettos através dos quais se fazem reconhecimentos nas principais provas nacionais pudessem ser cedidos a baixo custo para jovens valores cumprirem Ralis. 

Uma Federação que estivesse verdadeiramente empenhada em promover a aparição de novos talentos na modalidade, se calhar sentir-se-ia obrigada a trabalhar nesse sentido junto dos principais pilotos e equipas nacionais. 

Mas como estamos em Portugal, não surpreende que um dia destes a norma aplaudida na generalidade seja fazer reconhecimentos com carros de prova, apenas e só em classificativas encerradas ao trânsito e com umas boas dezenas de passagens para decorar a estrada na perfeição…

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.expressodefafe.pt/mais-de-50-equipas-fizeram-reconhecimentos-das-classificativas-do-rally-serras-de-fafe/

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