P.E.C. Nº 399: As palavras que nunca nos dirão...


Com praticamente quatro centenas de trabalhos publicados e a caminho de sete anos de existência, o blogue Zona-Espectáculo continua, pensamos, a ser aquilo que sempre pretendemos que fosse: um espaço despretensioso, destinado a aproveitar as nossas parcas horas de lazer para aprofundarmos assuntos sobre Ralis. 

algumas semanas, demos connosco a pensar que talvez fosse interessante tentarmos fazer por cá algum serviço público, até como forma de procurar acrescentar valor ao nosso trabalho. 

Aproveitando o atual momento de pré-campanha para os órgãos sociais da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, cujo sufrágio ocorrerá em maio próximo, ocorreu-nos, então, que para os leitores e visitantes deste espaço seria positivo perceber o que as três candidaturas já confirmadas ao órgão federativo propugnam quanto às grandes questões e desafios que se colocam aos Ralis portugueses no futuro a curto e médio-prazo.

Nos nossos pensamentos começaram, assim, a evidenciar-se uma série de perguntas estruturantes na modalidade.

Aquelas que, na nossa avaliação, nos parece integrarem o lote das que o público mais envolvido na modalidade gostaria de ler as respetivas respostas.

Podíamos ter esboçado uma série de questões simpáticas para os candidatos, daquelas que são pouco controversas e dão azo a facilmente brilharem.

Mas por deformação comportamental ou (mau) feitio, esse não é, em definitivo, o caminho que mais apreciamos trilhar.

Optámos, por conseguinte, por densificar questões, abordando zonas mais complexas deste desporto que por tradição ninguém está muito interessado em aprofundar, mas relativamente às quais qualquer projeto sério de intervenção no automobilismo tem obrigatoriamente de ter posição clara e abrangente.

Alinhavadas as perguntas, colocámo-nos no terreno e dirigimo-nos em primeiro lugar, por e-mail, no dia 29 de janeiro, diretamente a Manuel de Mello Breyner e Amândio "Mex" Machado dos Santos, expondo-lhes detalhadamente o nosso propósito e remetendo a ambos as questões por nós formuladas.

Uma vez que na comunicação social era já dada como adquirida a existência de uma terceira candidatura, esperámos uns dias, por uma questão ética, até Ni Amorim apresentar publicamente o seu projeto, e logo a cinco de fevereiro não deixámos de lhe enviar, também, a nossa ideia e as perguntas em apreço.

No essencial, transmitimos a todos eles a nossa intenção de dar um contributo, ainda que modesto, para os agentes direta ou indiretamente ligados às provas de estrada poderem perceber aquilo que as três candidaturas no terreno propõem relativamente a algumas matérias de decisiva importância no âmbito dos Ralis portugueses.

Não deixámos de sinalizar-lhes, também, a ideia de não estarmos animados por qualquer expiação do passado nem em proceder à avaliação do que foram os mandatos passados dos órgãos dirigentes da Federação, antes partir de uma folha em branco na qual as três candidaturas podiam escrever as linhas programáticas através das quais se propõem exercer o governo da FPAK para os próximos quatro anos quanto aos Ralis nacionais.

Fomos também claros ao referir a todos eles que a ideia basilar passava por recolhermos em bruto as respetivas respostas, sem qualquer conhecimento prévio das mesmas por parte dos respetivos adversários, e assim publicá-las, isentas de contraditório, no intuito dos nossos visitantes/leitores compreenderem e compararem os respetivos manifestos eleitorais, designadamente, claro está, no capítulo alusivo aos Ralis.

Desde já esclarecermos que, logo após, todos os candidatos à Presidência da Direção da FPAK em resposta ao nosso repto nos abordaram, por escrito e a título pessoal, de forma especialmente cordata.

Uma das candidaturas explicitou que iria analisar as nossas perguntas e posteriormente responderia, mas até hoje não o fez.

Outra das candidaturas referiu que não obstante a pertinência das nossas questões pretendia privilegiar, como meio de campanha, o espaço próprio que abriu para o efeito nas redes sociais, e que, se fosse o caso, seria aí que os temas por nós lançados seriam aprofundados.

A restante candidatura referiu que por uma questão estratégica não pretendia divulgar a sua posição sobre as perguntas por nós aduzidas sem que os projetos adversários o fizessem também, não deixando, porém, de nos revelar, em privado, algumas ideias que pretende levar para a frente caso seja eleita para assegurar os destinos da FPAK nos próximos quatro anos (ideias que por nos terem sido confidenciadas em privado manteremos, como é bom de ver, absolutamente em privado).

Como já adivinhou, caro amigo leitor e visitante, as respostas às questões que mais abaixo poderá ler não vão ser, por motivos alheios à nossa vontade, transcritas como originariamente pretendíamos.

Deixamos bem claro que nos merecem o maior respeito as estratégias que Breyner, “Mex” e Amorim delinearam como as melhores para alcançarem os seus intentos eleitorais.

Sublinhamos, também, que da nossa parte não sobra qualquer espécie de acrimónia pelo facto dos candidatos à Presidência da FPAK terem optado, todos, por não responder ao nosso desafio.

Cada pessoa ligada aos Ralis em Portugal fará eventualmente desse silêncio a respetiva interpretação.

No entanto, não deixamos de lamentar que questões de estratégia ou tática sobrelevem relativamente àquilo que deveria ser a obrigação primeira de quem se propõe agarrar os destinos dos Ralis neste país: ter um projeto de intervenção na modalidade e explicá-lo em toda a sua dimensão sempre que para tanto fosse demandado para o efeito, batendo-se pelo valor intrínseco e pela mais-valia das suas propostas.

Não vindo a jogo, pode eventualmente ficar a perpassar no ar a ideia de que os candidatos à direção da FPAK não têm resposta às questões que lhes formulámos, recearão, porventura, que as propostas do(s) vizinho(s) tenham mais substância que as suas, ou que os respetivos projetos não estão suficientemente aprofundados para dar resposta a algumas questões estruturantes que os Ralis nacionais têm por resolver.

Cada um de nós que se interessa por estes assuntos formulará, caso entenda, o seu próprio juízo valorativo sobre tal toada defensiva e silêncio generalizado.

Da nossa parte procurámos, ainda que de forma muito modesta, dar um contributo ao debate.

Não nos sentimos sequer derrotados ou apoucados pelo facto de todos os candidatos ao cadeirão principal da Rua Fernando Namora terem optado não ir de encontro ao desafio que lhes lançámos.

Tentámos, ainda que sem sucesso, prestar um serviço público à causa dos Ralis nacionais.

Não nos parece que neste caso em concreto Manuel de Mello Breyner, “Mex” Machado dos Santos ou Ni Amorim se encontrem em condições de dizer o mesmo...


==========     ==========     ==========

Nota 1: Quando anteontem nos preparávamos para concluir as linhas finais deste trabalho, fomos surpreendidos pela notícia da fusão entre as candidaturas encimadas por Breyner e “Mex”. Não obstante este novo indicador, de contornos para já algo indefinidos, o essencial das questões colocadas mantem-se atual, e, nessa medida, o que foi escrito acima não perdeu, a nosso ver, razão de ser. 

Nota 2: Caso por qualquer motivo os (agora dois) candidatos à Presidência da FPAK pretendam abordar as matérias constantes das questões que lhes endereçámos, este blogue continua e continuará totalmente recetivo a acolher e publicar para o efeito as respetivas opiniões.

 ==========     ==========     ==========

 PERGUNTAS 

 1) 

A prática reiterada de reconhecimentos ilegais é, em diversos quadrantes dos Ralis portugueses, considerado um dos maiores e mais complexos problemas que a modalidade enfrenta. Pela violação impune dos regulamentos. Pela subversão da verdade desportiva e da igualdade de condições que têm de ser creditadas a todos os concorrentes à partida de uma prova. Ou pela inflação de custos que tais passagens adicionais pelos troços, ainda que em viaturas do quotidiano, não deixa de se repercutir nos orçamentos para competição. A experiência de apostar no bom senso dos concorrentes tem-se revelado pouco conseguida. Nessa medida questiono-vos: têm um plano definido e exequível para tentar colocar termo aos reconhecimentos ilegais? Há uma determinação firme em não continuar a contemporizar com o problema? Ou a ideia passa, atenta alguma complexidade nesta matéria, por de forma tácita ou até em letra regulamentar assumir em definitivo a liberalização de tal prática?

 2) 

O interesse de uma modalidade desportiva é tanto maior quanto maior for o número de praticantes seus que possam competir em condições de ganhar. Atualmente em Portugal, salvo circunstâncias absolutamente excecionais, quer em terra, quer em asfalto, apenas quem dispõe de carros com as especificações R5 é que pode aspirar à vitoria em Ralis e no CNR. No intuito de dotar a mais importante competição de Ralis no nosso país de maior competitividade, abrindo a mais pilotos a discussão pelos triunfos, admite, inspirado naquilo que se tem verificado em anos recentes no Campeonato de Espanha de Ralis em Asfalto, liberalizar mais os carros do agrupamento de produção e os Grande Turismo, de molde a os primeiros (em terra e asfalto) e os segundos (em asfalto) poderem ter reais hipóteses de disputar vitórias em igualdade de circunstâncias com os R5?

 3) 

Quando se fala em Ralis nacionais, questão premente e incontornável é a promoção e a forma como, por essa via, se pode dar retorno a quem investe neste desporto. Por motivos vários, os Ralis, a modalidade do automobilismo de que os portugueses mais gostam e relativamente à qual se diz generalizadamente ser o segundo desporto preferido neste país, ainda não consegue chegar massivamente ao grande público. Há, em suma, a sensação que existe um imenso potencial por explorar. Para o próximo mandato federativo tem um plano específico para colmatar esta questão, indo de encontro às reivindicações de pilotos e organizadores? Há uma linha de ação tendente a fazer chegar a modalidade com mais ênfase às televisões generalistas que operam em canal aberto? Com exemplos concretos, de que forma pensa utilizar as novas ferramentas tecnológicas e o enquadramento das redes sociais para reforçar a divulgação das nossas competições?

 4) 

Não será necessário ser-se particularmente atento para se perceber um progressivo ‘envelhecimento’ (sem carga pejorativa) nas listas de pilotos inscritos das principais competições de Ralis nacionais. Se não houver uma renovação geracional, ainda que não no imediato mas seguramente a médio-prazo podem-se colocar problemas de sustentabilidade das nossas provas, por falta de concorrentes. Há certamente muita gente jovem a pretender lançar-se na modalidade. Há um conjunto de jovens pilotos com reconhecido talento que não consegue sedimentar carreiras por falta de apoios para o efeito. Da parte da sua candidatura há um plano concreto e abrangente visando criar condições para o aparecimento de novos valores na modalidade? Deve a FPAK apoiar financeiramente pilotos em início de carreira, suportando, por exemplo, os respetivos custos de inscrição nas provas? Deve ser reativado o campeonato de iniciados através de uma fórmula de baixo custo, dentro de uma lógica ‘radical’ (descontados os aspetos de segurança) dos pilotos competirem com carros o mais baratos possível e sem recurso a grande preparação, quase em regime do it yourself?

 5) 

Contabilizadas todas as competições internas, conclui-se que nas últimas temporadas há uma média bem acima de um Rali por fim-de-semana ao longo do ano. Numa altura em que os Ralis nacionais se debatem generalizadamente com uma certa erosão ao nível das respetivas listas de inscritos, faz sentido esta dispersão de pilotos por tal número de provas? Numa realidade nacional que sabemos ser complexa, justificam-se cerca de sete dezenas de Ralis disputados no nosso território durante cada época desportiva? Que modelo de campeonatos (quantas competições e quantas provas dentro de cada competição) advoga para os próximos anos nas provas de estrada portuguesas?

 6) 

Há bastante tempo e em vários quadrantes tem-se vindo a intensificar a pressão para se estabelecerem condições de escrutínio público quanto às avaliações que a FPAK faz sobre as provas disputadas no nosso país. A bem da transparência e da clareza de procedimentos. Para que se perceba, em concreto, quem afinal tem uma bitola organizativa de elevado quilate e quem falha, de forma grosseira, o caderno de encargos para organizar Ralis. Nessa medida, entende que devem ser tornados públicos os relatórios dos observadores FPAK, ou defende, explicitando as respetivas razões, que os mesmos devem continuar a ser mantidos no ciclo restrito e interno da Federação?

 7) 

Uma análise ao atual equilíbrio de poderes dentro dos Ralis nacionais, parece fazer pender decisivamente a balança a favor dos organizadores em detrimento de quem compete. Em alguns círculos ligados à modalidade, há correntes de opinião que defendem que os pilotos e navegadores portadores de licença FPAK deveriam ter direito a voto uninominal nas eleições ao órgão federativo, atribuindo-se aos clubes e associações voto majorado. Os percursores deste modelo alegam em defesa da sua ideia que, desta forma, se estabeleceria tendencialmente uma nova ordem no equilíbrio do peso eleitoral e na representatividade dos agentes diretamente ligados aos Ralis, com uma repartição de poderes equitativa entre quem organiza e quem compete. Na qualidade de Presidente eleito da FPAK sufragaria um modelo deste género? Defende uma mudança de paradigma no universo de quem tem capacidade para escolher os elencos federativos? Ou defende que o modelo atual é em si mesmo equilibrado e aquele que melhor serve os interesses dos Ralis nacionais?

 8) 

Caso seja eleito Presidente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, quais serão as duas primeiras medidas (e porquê elas…) que implementará quanto aos Ralis nacionais?

 9) 

Questão controversa tem sido, ao longo dos últimos anos, a inclusão, ou não, do Rali de Portugal no corpo dos eventos que constituem em cada ano o Campeonato Nacional de Ralis. Defende que a prova maior e mais representativa do automobilismo português deve estar integrada no CNR? Se sim, em que moldes e sob que condições?

 10) 

Encontrando-se a sua candidatura já implementada no terreno, e uma vez que a credibilidade de uma equipa de trabalho também passa em grande medida pelo prestígio e competência dos nomes que a integram, está em condições (e pretende) de revelar quais serão na sua equipa federativa as personalidades que irão trabalhar mais diretamente na área dos Ralis?

==========     ==========     ==========

AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.fpak.pt/sites/default/files/editor/images/Imagem%20Licen%C3%A7as%20Site.jpg
- http://www.fpak.pt/sites/default/files/fotos/Not%C3%ADcias/calendario-2017-campeonato-nacional-velocidade-20151.jpg
- http://www.ralis.fpak.pt/sites/all/themes/bootstrap/images/fb_big/53.png

Comentários