P.E.C. N.º 400: Réquiem pelos slaloms...


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duas semanas cumpriu-se em Castelo Branco a segunda ronda do Campeonato Nacional de Ralis de 2017.

Fértil em emoções e generoso nos animados despiques dentro de todas as categorias em prova, o evento beirão soube uma vez mais assumir-se como ótima jornada de promoção para a modalidade.

Trabalha-se bem e com gosto naquelas paragens.

Disso dão conta, aliás, os encómios provindos de diversos quadrantes que a prova da Escuderia Castelo Branco tem colhido nos últimos anos.

O grande desafio que nesta altura talvez se coloque à entidade organizadora do Rali é saber reinventar-se nas próximas temporadas, de molde a que o evento não se repita em si mesmo, disputado sempre nas mesmas estradas, várias delas, em diversos dos seus segmentos, a nosso ver demasiado rápidas e obrigando a pouca condução, com os motores dos carros em rotação esgotada segundos a fio.

Fora esse reparo, na capital da Beira Baixa desde 2014 têm sido produzidos Ralis desportivamente muito interessantes e com elevados padrões organizativos.

Nessa matéria, por conseguinte, a última edição do evento albicastrense não constituiu exceção ao elã deveras positivo a que nos vem habituando nos últimos anos.

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Quando dentro do campeonato nacional há (e há em muitas ocasiões) motivos para evidenciar os Ralis pela sua emoção e espetacularidade, emerge com frequência uma estranha autofagia que faz a modalidade ser notícia com o alimentar de polémicas, até mesmo quando de polémicas têm muito pouco.

Se em Fafe, na abertura da presente época desportiva, tinham sido os aspetos ligados à segurança a saltar para a ribalta, no asfalto de Castelo Branco foram as chicanes colocadas no traçado da superespecial desenhada no interior daquela urbe a dar brado.

Pelas imagens que pudemos visionar do Rali de Castelo Branco, vários pilotos, no decurso da terceira classificativa do evento (a sobredita superespecial), embateram nas barreiras de plástico das chicanes artificiais colocadas no respetivo percurso.

Houve quem acertasse de raspão.

Houve quem acertasse em cheio.

Terá havido quem porventura ganhou tempo com tal facto.

Houve talvez quem tivesse perdido preciosos décimos de segundo com tais toques.

É uma contabilidade difícil de precisar.

Não obstante vários pilotos terem ‘prevaricado’ no troço, alguns deles, admitimos talvez não intencionalmente, até ‘alargando’ a estrada ao desviarem tais barreiras com as zonas laterais dos seus bólides, no centro da celeuma esteve porém apenas um piloto: José Pedro Fontes.

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Ao falhar uma travagem (falta de concentração do piloto? Erro nas notas? Travões e/ou pneus ainda frios?) o agora líder do campeonato abalroou em cheio e de frente com o seu DS3 R5 as barreiras de plástico colocadas na estrada, destruindo o ‘muro’ artificial ali criado.

Sem obstáculo para contornar, seguiu em frente até final do troço onde realizaria o tempo de 1m:58,7s, mais lento, portanto, 6,5 segundos que João Barros, o vencedor desta superespecial.

Nessa admirável Comarca que dá pelo nome de redes sociais, e sobretudo no interior desse profícuo Tribunal Judicial conhecido como Facebook, fez-se logo de forma célere, uma Justiça à la carte com base no luso 'achismo’.

O júri do ‘Tribunal’ (constituído por um painel onde coube o comum dos adeptos, mas também pilotos e navegadores que deviam ter, nestas matérias, especiais responsabilidades em pautar a respetiva opinião com base no rigor e pedagogia) na generalidade pouco dado a ler e aprofundar, enfim, o que os regulamentos prescrevem acerca do assunto, lá ‘achou’, então, que o veredito final e insuscetível de recurso só poderia ser CULPADO!

Vejamos o que a regulamentação aplicável na temporada de 2017 aos Ralis nacionais prescreve quanto à questão das superespeciais.

O artigo 20 das Prescrições Específicas de Ralis de 2017 (P.E.R) dedica um conjunto abrangente de normas à questão.

É no artigo 20.1.4, alínea ‘a’), do mencionado compêndio regulamentar, que se ilustra e baliza a forma como as chicanes artificiais devem ser montadas, as quais, sublinhe-se, só podem ser construídas com recurso a pneus ou jerseys de plástico, a bem, pensamos, da segurança dos concorrentes.

O artigo 20.1.6.2, redigido sob o título (“Atalhar o percurso”), deve-nos merecer desde logo um pouco mais de atenção.

Prescreve a norma: “qualquer equipa nesta circunstância, e que tire daí benefício em termos de tempo final (negrito e sublinhado nosso), ser-lhe-á aplicada a penalização definida no Art. 21.1.3 a).” 

O artigo 20.3 das P.E.R de 2017 (“Penalização em chicanes”), densifica situações relativamente aos toques nos pneus ou jerseys que delimitam uma chicane.

De forma imperativa impõe o normativo: “sempre que uma equipa derrubar / afastar deliberadamente (negrito e sublinhado nosso), os elementos que constituam uma chicane, do seu lugar original, ganhando tempo (negrito e sublinhado nosso), será penalizada em 15 segundos, a incluir no tempo total da PEC.”

Colocámos propositadamente em destaque aspetos das duas citadas normas, que são as que se aplicam aos casos em concreto verificados em Castelo Branco.

Poderíamos simplesmente fazer de conta que os mesmos não estão lá, na letra regulamentar.

Mas estão.

Pode-se discutir, enquanto princípio, a justeza da penalização de toques, deliberados ou não, com maior ou menor grau de intensidade, nas barreiras que delimitam uma chicane.

Não se pode, de todo, é afastar requisitos e elementos (“benefício em termos de tempo final”; “deliberadamente”; “ganhando tempo”) que uma norma contempla no seu texto e, expurgados os mesmos, aplicar ainda assim a mesma quando os factos o determinam.

Não nos parece, visionando as imagens da superespecial de Castelo Branco, que qualquer dos pilotos que embateram em cheio ou de raspão nas barreiras das chicanes o tenham feito deliberadamente, nem que daí tenham ganhado comprovadamente tempo.

Logo, os artigos das Prescrições Específicas de Ralis de 2017 que acima transcrevemos, os quais, na interpretação que deles fazemos, visam punir o dolo mas não a tentativa ou conduta negligente, não podem ser aplicados aos concorrentes que foram identificados a embater nos jerseys do traçado desenhado na cidade beirã, designadamente a José Pedro Fontes.

Aliás, parece-nos ser precisamente pelo facto de qualquer reclamação apresentada pelos adversários do piloto do Porto não ter grande margem para proceder, é que ninguém, pelo menos dentro do lote dos pilotos que duelaram pelos melhores lugares da prova da ECB, formalizou junto das entidades jurisdicionalmente competentes um protesto para o efeito.

Como referimos, qualquer pessoa que goste destas temáticas é livre de formular um juízo de valor sobre a forma como o campeão nacional seguiu em frente numa das famigeradas chicanes.

, note-se, opiniões para os mais variados gostos e feitios.

Mas esse é o domínio, sempre relativo, daquilo que é justo ou injusto.

os regulamentos devem primar pela objetividade.

E objetivamente, sob pena dos nos repetirmos, por muito que os seus detratores desejassem ardentemente o contrário, na nossa opinião não haveria qualquer forma de penalizar Fontes pelos acontecimentos de Castelo Branco.

Nem ele, nem qualquer dos demais pilotos que também embateram nas barreiras colocadas no percurso da superespecial da prova.

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Como é evidente o piloto do Citroen não está acima dos regulamentos.

, porém, quem tente fazer passar a mensagem que o campeão nacional é uma espécie de rosto do sistema e que lhe são concedidas prerrogativas especiais em comparação com os seus adversários.

quem talvez conviva mal com o facto de ter construído em quase vinte e cinco anos de carreira um palmarés notável, que nas competições internas não há alguém que possa orgulhar-se de igualar.

Pode haver um desconforto em alguns quadrantes por ser dos poucos pilotos dentro de portas a conseguir, ano após ano, apoios que lhe permitem gozar o invejado estatuto de profissional das corridas.

Quem sabe não ajuda também a tal clima algo hostil Fontes estar diretamente ligado a uma estrutura, a Sports & You, que em matéria de Ralis em geral e na preparação de carros de competição em particular tem atualmente uma carteira de clientes que vai de Portugal até às ilhas, passando inclusive por Espanha.

É, para concluirmos, análise para especialistas em ciências comportamentais.

Da nossa parte, como desenvolvemos supra, entendemos não haver, do ponto de vista estritamente regulamentar, matéria para penalizar o piloto do Citroen vermelho e branco pelo verificado na superespecial ‘Jornal Reconquista’ há duas semanas atrás.

Aliás, receamos até mais: atenta a forma como as normas regulamentares em análise estão redigidas, e dada a dificuldade em comprovar probatoriamente conceitos algo subjetivos como a intenção deliberada ou ganhos de tempo, só quando um piloto confessar (hipótese quase académica) que atalhou de propósito o percurso de uma superespecial embatendo nas barreiras delimitadoras da estrada, ou o faça de tal forma grosseira que salte à vista dos observadores e espetadores no troço, é que poderá ser punido com base nos artigos 20.1.6.2 e 20.3 das Prescrições Específicas de Ralis de 2017.

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quem defenda, para evitar situações análogas à de Castelo Branco, que as barreiras das superespeciais deveriam ser em blocos de cimento.

No essencial discordarmos, por essa opção nos merecer algumas reservas em matéria de segurança.

também quem, numa visão mais drástica, advogue pura e simplesmente o fim das superespeciais.

Também aqui discordamos.

É crucial para a modalidade poder chegar a mais pessoas (que por norma estão nas cidades) seduzindo-as para esta causa.

com uma estratégia alavancada na massificação dos Ralis é que se garantem bons índices de retorno a patrocinadores, atuais e futuros.

O que pode, então, este desporto oferecer às populações residentes nos grandes centros urbanos?

A sua essência intrínseca fundada na velocidade, cor, luz, som, e na perícia ao volante dos seus grandes intérpretes.

Para isso é fundamental que tais predicados possam ser expressos em estado bruto, sem os constrangimentos do cronómetro.

É nessa medida que há muito advogamos a substituição das superespeciais recuperando-se para as nossas provas o conceito, injustamente datado e quase perdido nas memórias dos agentes da modalidade, do slalom.

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Quando os carros de Rali evoluem em grandes aglomerados urbanos, por norma as pessoas querem ver aquilo que um troço clássico não (ou apenas a espaços) consegue oferecer: derrapagens, piões, longas atravessadelas e quejandos.

Em suma: carros a andar de lado, politicamente incorretos, ignorando olimpicamente a higienizadora ditadura do relógio.

Para ilustrar visualmente a ideia que pretendemos transmitir: imagine-se Ricardo Teodósio a conduzir em estado puro, sem preocupações se a frente do carro não obedece na perfeição à voz de comando do volante, ou a traseira se passa mais do que devia.

Imagine conceder-se a Teodósio total liberdade para dar azo à sua criatividade na condução de bólides de competição.

Isso seria… um slalom.

Nos últimos anos as superespeciais foram-se tornando uma quase inevitabilidade nos eventos do Campeonato Nacional de Ralis, também muito devido à pressão, se calhar até exigência, oriunda dos municípios que vão ganhando um peso crescente no apoio às provas da modalidade.

Não sendo fácil inovar nesta matéria, em vários dos Ralis do campeonato as supespeciais vão repetindo os mesmos trajetos ano após ano, em vários casos, diga-se, com duvidoso interesse desportivo, que os pilotos por norma cumprem com especiais cuidados (há muito a perder nestes mini troços e raramente neles se ganham Ralis) e sem grande prazer na condução, apenas, se quisermos, por mero dever de ofício.

No imaginário de muitos adeptos percorre ainda bem vivo o antigo slalom do Rali de Portugal.

No final das hostilidades e sem rigorosamente nada já a contar para a classificação da prova, a reta da meta do Autódromo do Estoril engalava-se a preceito com a presença de multidões colorindo e enchendo as bancadas ‘A’ e ‘B’, apenas para o desfile final das grandes máquinas da modalidade e a exibição dos dotes de condução dos melhores pilotos de Portugal e do mundo.

Não era à procura propriamente de velocidade que os aficionados se deslocavam ao Estoril.

Ela, aliás, esteve garantida durante muitos anos, até 1986, ali mesmo ao lado, na Lagoa Azul.

O móbil para peregrinação massiva ao Autódromo era o clima de festa e a entronização da habilidade dos concorrentes ao volante.

Era, rematando-se a ideia, o espetáculo.

É apostando decisivamente nesse predicado fundamental dos Ralis (a espetacularidade) que nos parece ser muito importante levá-los onde estão as pessoas, mas fazendo-o oferecendo-lhes como princípio primeiro aquilo que a modalidade melhor pode produzir.

Nessa medida, acreditamos há muito que um slalom sem o cronómetro ligado (ou, estando-o, sem ter qualquer peso nas contas de um dado Rali) substitui com grande vantagem as superespeciais.

Por permitir, desde logo, aos pilotos divertirem e divertirem-se, longe do fator acrescido de stresse que constitui sempre a tomada de tempos final de cada classificativa.

Por, do ponto de vista organizativo, ser mais fácil e menos oneroso de colocar em prática, sem necessidade de recurso, entre outras coisas, a células de tomada de tempos, juízes de facto, ou até de… barreiras!

Para quê desenhar um percurso em linha de dois quilómetros no centro de uma vila ou cidade (que inclusive em alguns casos traz constrangimentos em matéria de circulação de pessoas e trânsito), quando uma ou duas retas com 200, 300 ou 400 metros, eventualmente entrecortadas com uns cruzamentos, podem perfeitamente servir para fazer a festa e deitar os foguetes?

Os Ralis portugueses enfrentam, de forma quase endémica, grandes desafios num cenário de pouco dinheiro dentro e ao redor deste desporto.

Na nossa visão, um desses reptos passa por fomentar aquela ideia, algo ‘americana’, de trazer os aficionados para as provas oferecendo-lhes espetáculo em doses generosas.

Carros potentes, pneu queimado, motores em alta-rotação, decibéis a por em polvorosa as autoridades de saúde e cheiro a Ferodo são, nesta área, um bom princípio de conversa.

Quem tem medo, através dos slalom, em elevar a nota artística dos Ralis portugueses?

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A FOTO DE ABERTURA DESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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