P.E.C. Nº 408: Quem tudo Craig, tudo perde?


Após o acidente de José Pedro Fontes e Inês Ponte no pretérito Rali de Portugal, a estrutura da Sports & You colocou em duas ocasiões ao volante do carro decorado com as cores da Vodafone pilotos oriundos da equipa oficial da Citroen no WRC

No asfalto da Madeira foi Stéphane Lefebvre indigitado para tal função, diga-se numa prestação sem grande rasgo nem glória, aliás terminada prematuramente para o gaulês. 

Em Mortágua, no passado mês de setembro, a opção recaiu em Craig Breen para tripular o bólide da equipa portuguesa nas florestais cravadas junto à Barragem da Aguieira e nas encostas e topos da Serra do Boi. 

Somos assumidos entusiastas de pilotos com renome internacional participarem nos nossos Ralis internos. 

Pensamos ser uma forma eficaz de elevar o padrão competitivo dos principais concorrentes – sobretudo eles – inscritos no campeonato nacional de Ralis. 

Competir contra os melhores é quase sempre um forte tónico galvanizador em qualquer modalidade desportiva: as provas de automobilismo, designadamente as disputadas em estrada aberta, não fogem a essa máxima

A prestação de Breen nas florestais em gravilha do centro do país foi categórica, vincando de forma evidente a rapidez inata e o seu estatuto de piloto oficial

Triunfou em todos os troços do Rali de Mortágua, à exceção da superespecial de abertura da prova. 

Um coro de críticas logo se levantou após o evento, alimentado na comparação entre os tempos realizados pelo irlandês e os pilotos portugueses. 

O linchamento da competência dos nossos melhores valores foi então imediato e taxativo – à boa e incorrigível maneira lusa… -. 

Vem cá um estrangeiro e limpa o Rali com uma perna às costas, disseram. 

Chega, não conhece os troços, e dá aviadelas a quem já sabe o terreno de olhos fechadospor sinal Mortágua até teve em 2017 muita estrada nova e até inédita, recordamos nós… -, exclamaram quase exultantes! 

Esqueceram, sem surpresa de maior, o mais importante: não o facto de Breen ter sido mais rápido que os adversários, antes os fundamentos – são diversos e de vária ordem, mas não cabe para já aprofundá-los – através dos quais o piloto da Citroen, como era de resto sua obrigação, se mostrou convincentemente mais veloz na medição da respetiva performance com a dos seus contendores portugueses. 

O foco do presente trabalho não reside, porém, na constatação da rapidez do britânico perante os seus antagonistas portugueses na oitava ronda do C.N.R de 2017. 

Foi o corolário de uma evidência dentro do cenário já esperado. 

Chamam-nos ao presente trabalho as palavras proferidas pelo coroado vencedor em Mortágua no rescaldo do evento


Duas passagens avultam nestas declarações: a alegada redução do ritmo do irlandês «para aí para os 50 ou 60%», infere-se a partir do momento em que chegou à liderança do Rali, e, decorrência desse pretenso levantar de pé, o facto de, após, ter pautado a sua estratégia por rodar «muito cuidadoso, mantendo sempre o carro no meio da estrada para não estragar nada»

O quadro publicado infra, na crueza dos números lá inscritos, é de uma clareza inusitada: Craig Breen não reduziu em qualquer momento do Rali de Mortágua de forma substancial o seu andamento

Com um atraso de mais de cinquenta segundos após penalização na superespecial, andou forte na primeira passagem pelos troços de ‘Mortágua/Calvos’, ‘Póvoa do Sebo’ e ‘Felgueira’

No final da primeira ronda encontrava-se já a menos de três segundos da liderança do Rali, - ainda - pertença de Carlos Vieira

Na segunda passagem pelas sobreditas especiais foi mais veloz em todas elas na confrontação com os seus tempos aí realizados na primeira parte da prova. 

com a liderança perfeitamente solidificada e com a vitória no bolso, apenas abrandou o ritmo na derradeira classificativa do evento do Clube Automóvel do Centro, mas mesmo assim apenas perdendo 1,3 segundos em 11,67 quilómetros na comparação realizada aquando da primeira passagem - ‘Mortágua/Calvos 1’ - pela mesma estrada, quando estava a rodar completamente ao ataque para recuperar do atraso sofrido na superespecial de sexta-feira. 

Em suma: não houve, como fica demonstrado, qualquer redução autoimposta do ritmo de Craig Breen ao longo de todo o transato Rali de Mortágua para o tal padrão de «50% ou 60%»

Desconhece-se o contexto e até o propósito destas declarações do piloto da equipa oficial da Citroen.

Com uma carreira já respeitável no plano internacional, Craig sabe perfeitamente não ter entrado em qualquer momento em modo de gestão na prova mortaguense. 

Talvez de forma não intencional, a mensagem deixada foi, porém, no sentido de desvalorizar os pilotos seus adversários em Mortágua, os quais, em alguns troços, até realizaram cronos próximos dos seus. 

A ideia transmitida foi também de um certo apoucamento a uma prova na qual só competiu porque quis e em certo sentido lhe conveio – para reforçar a confiança e manter em alta o ritmo competitivo -. 

Ao sinalizar ter-se limitado a rodar a meio-gás em boa parte do evento e isso lhe ter bastado para triunfar, acabou por banalizar um campeonato esquecendo os interesses de todo um conjunto de patrocinadores do bólide a si confiado – no limite quem financiou esta vitória agora indexada ao palmarés de Breen -, alguns deles com dezenas de anos de envolvimento nos Ralis nacionais, os quais certamente não pretendem ter uma imagem associada a uma competição nivelada por baixo.

Entramos então, após todas as considerações atrás desenvolvidas, num outro aspeto da questão: a forma de comunicar de quem compete

Os pilotos de topo no automobilismo, sobretudo a partir do advento e da democratização – se o caro amigo leitor preferir: massificação – do acesso à informação em anos mais recentes, além do talento inato já não podem só cingir-se a otimizar os aspetos físicos e mentais inerentes ao seu estatuto de atletas. 

uma terceira dimensão agora obrigatória para quem pretenda fazer carreira ao mais alto-nível no mundo do desporto: comunicar com eficácia. 

Este 3D mediáticoem Portugal ainda num estado muito embrionário e feito às vezes de meras boas-vontades, e claramente um dos fatores a impedir a projeção da modalidade junto de novos adeptos e mais patrocinadores - alavanca-se em três pilares essenciais: fazer a mensagem chegar ao maior número de destinatários possível, dotá-la da maior clareza de molde ao recetor compreender com facilidade e imediatez o seu alcance, e elevar as virtudes do contexto a partir do qual a mesma é produzida. 

É precisamente neste último quesito que Breen falhou, quando pela experiência adquirida ao longo de diversos anos em equipas oficiais seria suposto não falhar. 

Portugal, por sinal, até tem tratado o britânico razoavelmente bem. 

A somar ao êxito em Mortágua, foi em terras – na aceção literal da palavra – lusas a sua primeira aparição em provas pontuáveis para o campeonato do mundo – Rali de Portugal / 2009 – juntando também o seu nome ao álbum de ouro do Rali dos Açores através da vitória em São Miguel em 2015. 

Como referimos, no leque de exigências hoje apresentadas a quem queira fazer Ralis com padrões elevados de competitividade, está, e cada vez mais vai estar, presente a necessidade de uma comunicação assertiva sem perder a espontaneidade. 

Os milhões de euros em jogo – se quisermos, milhares de euros de acordo com a nossa escala interna – e a afirmação da imagem pela positiva assim o determinam. 

Um conjunto de despistes pode deitar por terra as ambições de carreira de um qualquer piloto. 

Sucessivos capotanços comunicacionais podem com boa dose de probabilidade conduzir a idêntico desfecho...


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 TEMPOS REALIZADOS PELOS TRÊS PRIMEIROS CLASSIFICADOS FINAIS 
 NO RALI DE MORTÁGUA / 2017 

Breen / Hayes
Vieira / Carvalho
Meireles / Castro
‘SE de Mortágua’
Tempo realizado: 1m:56,2s
‘SE de Mortágua’
Tempo realizado: 2m:03,6s
‘SE de Mortágua’
Tempo realizado: 1m:53,4s
‘Mortágua/Calvos 1’
Tempo realizado: 7m:40,0s
‘Mortágua/Calvos 1’
Tempo realizado: 7m:47,1s
‘Mortágua/Calvos 1’
Tempo realizado: 8m:02,6s
‘Póvoa do Sebo 1’
Tempo realizado: 10m:27,6s
‘Póvoa do Sebo 1’
Tempo realizado: 10m:40,5s
‘Póvoa do Sebo 1’
Tempo realizado: 10m:42,9s
‘Felgueira 1’
Tempo realizado: 12m:36,1s
‘Felgueira 1’
Tempo realizado: 12m:55,9s
‘Felgueira 1’
Tempo realizado: 12m:56,1s
‘Mortágua/Calvos 2’
Tempo realizado: 7m:38,6s
‘Mortágua/Calvos 2’
Tempo realizado: 7m:43,2s
‘Mortágua/Calvos 2’
Tempo realizado: 7m:44,7s
‘Póvoa do Sebo 2’
Tempo realizado: 10m:22,0s
‘Póvoa do Sebo 2’
Tempo realizado: 10m:33,2s
‘Póvoa do Sebo 2’
Tempo realizado: 10m:28,1s
‘Felgueira 2’
Tempo realizado: 12m:32,6s
‘Felgueira 2’
Tempo realizado: 12m:41,4s
‘Felgueira 2’
Tempo realizado: 12m:43,1s
‘Mortágua/Calvos 3’
Tempo realizado: 7m:41,3s
‘Mortágua/Calvos 3’
Tempo realizado: 7m:46,8s
‘Mortágua/Calvos 3’
Tempo realizado: 7m:53,8s

  

  

  


  

  

  


A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://pbs.twimg.com/media/DKje8r5XoAAei7x.jpg

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