P.E.C. Nº 410: Entre virtuosos e virtuais, militamos convictamente nos primeiros...



Nada como uma boa polémica para apimentar os defesos nas competições de Rali. 

Quebra-se a monotonia. 

E mantem-se em paralelo a modalidade no centro das atenções dos adeptos e no calor do mapa mediático. 

dias, em Paris, após a Gala da F.I.A para entrega dos troféus relativos ao campeonato do mundo de Ralis na temporada de 2017, Julien Ingrassia, copiloto – quase desde sempre… - de Sébastien Ogier, veio às redes sociais insurgir-se contra o tamanho da taça a si atribuída pela conquista da competição reservada aos navegadores, sobretudo quando comparada com aquela, bem mais faustosa, arrebatada pelo piloto gaulês após mais um título averbado no ano desportivo há pouco concluído. 

Escreveu Ingrassia, para quem o quis ler: «Uma vez mais estou desapontado por o campeão dos navegadores não merecer um “troféu de campeão”. Porque é que a cada ano aos construtores e pilotos é atribuída uma bela taça com os respetivos nomes registados, e aos copilotos não?», questionou o francês. 

Na defesa da missão dos copilotos, parece-nos que Ingrassia foi muito oportuno neste reparo materializado em forma de lamento. 

Com responsabilidades disseminadas por vários quadrantes, quem se senta no banco do lado direito dos carros de competição é ainda geralmente visto como uma espécie de parente pobre dos Ralis, quando não confinado a um mero declamador de notas

Neste blogue temos procurado em ocasiões anteriores, desconhecemos se com sucesso e até se com suficiente insistência, fazer alguma pedagogia de sentido contrário. 

Não escondemos a curiosidade, crescente, de compreender como pode um navegador  ser condição fundamental para o sucesso de um projeto nos Ralis. 

Além do trabalho primordial de antecipar a estrada ao piloto, há em paralelo à oralidade todo um vasto território ao nível da gestão de emoções dentro de carro no qual o copiloto é peça primordial. 

Do lado direito do bólide está muitas vezes um sábio na descodificação dos mistérios da condição humana, faceta sem a qual a rapidez e consistência de performances do condutor se podem ressentir. 

Dentro deste bolo de predicados para se ser copiloto de qualidade, vamos seguindo com enorme entusiasmo – tanto como qualquer piloto nacional que arrisque internacionalizar a respetiva carreira – as aventuras do Hugo Magalhães fora de portas, hoje requisitado pela excelência do seu trabalho para competir um pouco pelos quatro cantos do planeta. 

Em pouco mais de seis anos, o perfecionismo e motivação permanente do homem de Viana do Castelo para se superar levaram-no da condição de quase ilustre desconhecido até a um nível muito elevado no contexto das maiores competições mundiais. 

Mesmo não chegando tão longe, dentro de portas e nas nossas competições internas há um conjunto alargado de navegadores verdadeiramente exímios na sua arte

manifestámos anteriormente a nossa opinião e repetimo-la: separando às águas – funções… -, o nível médio dos melhores penduras portugueses no mínimo equipara-se, se não supera mesmo, ao dos mais talentosos pilotos do nosso país. 

Nesta afirmação da importância do trabalho dos navegadores, contextualizamos a perplexidade de Julien Ingrassia enquanto um grito de insatisfação com destinatário direto muito claro: Jean Todt, por ironia ele próprio antigo copiloto de Ralis. 

O problema central dentro de tudo isto é, como muitas vezes, confundir-se o acessório com o essencial. 

Enquanto as redes sociais, fóruns de debate, e até alguma imprensa se têm dedicado a semear abundantemente caracteres sobre o assunto em apreço – é justo, legítimo, compreensível e até salutar o facto do navegador campeão do mundo não pretender ficar calado perante a “menorização” dele e dos seus pares quanto ao reconhecimento institucional da relevância das suas missões –, objetivamente a discussão não tem alcance ou abrangência suficiente para ir além de dirimir a dimensão física de um troféu.

"... segue-se o quê? Um aparelhómetro qualquer a procurar emular o espírito competitivo e estilo arrebatador do McRae quando ao volante? Um robô a reproduzir as contrabrecagens e os scandinavian flicks do Teodósio “conduzindo” através de um qualquer ecrã tátil?..."

No entanto, como sói dizer-se, o pecado mora ao lado

Noutra dimensão na nossa perspetiva perturbadora, mas aparentemente pouco mobilizadora para adeptos, jornalistas, e, mais inquietante, os próprios copilotos. 

Os apóstolos da capitulação social, económica e ética do Homem perante a tecnologia, matraqueiam-nos amiúde com a inevitabilidade futura da perda de trabalho e empregos às mãos da robótica e da informática. 

Uma espécie de Armagedão em forma de algoritmos, digamos. 

Nunca acreditámos nisso.

Caso algum dia, num futuro remoto ou quem sabe até próximo, o Homem se sinta verdadeiramente ameaçado pela tecnologia enquanto ser gregário, operará na fração de segundo seguinte o instinto de preservação da espécie e o poder imbatível a ela inerente. 

Enquanto esse clique não acontece e o mundo ainda vai testando por vezes de forma pouco recomendável os seus próprios limites, de quando em vez chegam-nos notícias da realidade a induzir-nos uma certa tensão. 

Mais ou menos em simultâneo com as interrogações de Julien Ingrassia no facebook, Paolo Andreucci, pluricampeão italiano de Ralis, assumiu-se como o rosto de uma nova aplicação, por sinal gratuita, a qual funciona em termos práticos como um navegador virtual capaz de verbalizar notas ao piloto de acordo com o percurso da estrada previamente marcado, dentro de uma lógica similar ao funcionamento de um vulgar G.P.S

As imagens abaixo publicadas dão conta do espírito e essência da coisa

Se a coisa for para levar para diante e vingar no futuro, os Ralis tal como os conhecemos hoje levarão um fortíssimo abanão nos seus alicerces mais sólidos. 

Por uma razão simples: nada pode substituir um navegador. 

Jamais um gadget será capaz de intuir a necessidade de antecipar uma nota, por exemplo para o piloto não travar tarde de mais. 

Jamais um gadget conseguirá ter a perceção, no imediato, da importância de repetir uma nota ou elevar o timbre de voz para o piloto redobrar atenções perante uma ratoeira da estrada. 

Um gadget nunca terá a capacidade de ler a estrada a olho nu, sinalizando verbalmente uma placa de gelo ou um buraco no asfalto não identificados nos reconhecimentos, por exemplo. 

Um gadget nunca terá a faculdade para perceber quando deve espicaçar ou refrear os ímpetos a um piloto, tão-pouco avaliar as situações nas quais o condutor e o carro podem dar um pouco mais, ou, pelo contrário, estão a ultrapassar os limites do desejável. 

Um gadget jamais abraçará ou apertará firmemente a mão do piloto, celebrando em comunhão uma vitória ou um campeonato. 

Um gadget não sobe ao capô de um bólide numa cerimónia do pódio, nem despeja motivação e autoconfiança para cima do piloto sobre a forma de champanhe. 

Um gadget nunca será o gajo ali sempre à mão para trocar os pneus da máquina, ou para ajudar a solucionar um problema mecânico. 

O gadget nunca será, em suma, o muro das lamentações para as frustrações de um piloto, nem sequer bom e atento ouvinte para desabafos pessoais do condutor. 

Não nos entusiasma ver o cockpit de um carro de Ralis transformado numa espécie de escritório da Microsoft

Não temos dos Parques de Assistência a ideia de deverem ser uma espécie de emanação da Web Summit

Qualquer aparelho dotado de inteligência artificial com a veleidade de substituir o papel do copiloto será, como enfatizamos algumas frases acima, não só perigoso como prejudicial na performance desportiva de quem conduz em troço a alta-velocidade. 

A ideia tem, portanto, do ponto de vista da racionalidade, poucas pernas para andar. 

Nesta procura incessante de ver quem consegue surpreender – não necessariamente pela positiva ou pelos melhores motivos - indo mais além em termos tecnológicos, segue-se o quê? 

Um aparelhómetro qualquer a procurar emular o espírito competitivo e estilo arrebatador do McRae quando ao volante? 

Um robô a reproduzir as contrabrecagens e os scandinavian flicks do Teodósio “conduzindo” através de um qualquer ecrã tátil?...

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://www.facebook.com/julien.ingrassia/photos/rpp.43233413727/10155895078863728/?type=3&theater

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