P.E.C. Nº 424: “Luta de classes” no Campeonato de Portugal de Ralis…


I)

Nas semanas anteriores nada escrevemos neste espaço acerca do arranque do – agora rebatizado, dentro de uma mera operação de cosmética sem qualquer substância ou relevo para a modalidadeCampeonato de Portugal de Ralis

Não o fizemos por um motivo estruturalmente simples e de rápida compreensão: porque dificilmente acrescentaríamos algo de diferente ou original ao entretanto falado e escrito para o efeito nas mais diversas proveniências. 

Comungamos em pleno do entusiasmo generalizado em torno da primeira etapa do C.P.R, versão 2018. 

Em rigor não nos recordamos, pelo menos num passado recente, de uma lista de inscritos tão expressiva – em quantidade e qualidade – como a presente no pretérito Rali Serras de Fafe.

Confirmações, regressos, novidades, – boas – surpresas e alguma polémica, marcaram e continuam a marcar a competição maior da modalidade no nosso país no corrente ano desportivo. 

O desenrolar da temporada, por motivos de diversa ordem irá fazer a triagem natural sobre quem se encontra melhor apetrechado para averbar os títulos em disputa. 

quem vá sobressair. 

quem, aliás, já começou a sobressair. 

, no campo oposto, quem vá desiludir e... desiludir-se. 

, também, como é praxe no C.P.R, vários projetos desportivos presentes em Fafe a serem descontinuados à medida que a época vá avançando e os orçamentos vão recuando

Tudo normal. 

Faz parte da quintessência deste desporto. 

Para já, com responsabilidades provindas de vários quadrantes, o Campeonato de Portugal de Ralis está na ordem do dia e conquistou pelos melhores motivos quota de mercado junto do mapa mediático. 

No entanto, nem tudo é perfeito...

II)

Sob a capa glamorosa de dezenas de carros com as especificações R5as melhores máquinas para Ralis existentes no mundo, à exceção óbvia dos W.R.C, com as quais muito nos congratulamos – há, depois, um conjunto de pilotos aos comandos de bólides das categorias inferiores quase submersos nos favores e interesse dos meios de comunicação social, dos fóruns de debate e até das redes sociais. 

Quanto a estes concorrentes, vários deles jovens muito talentosos e com imenso potencial por explorar, a modalidade revela sempre um profundo desdém em ousar pensar fora da caixa

Nas duas rodas motrizes e nos carros de produção há gente com muita qualidade e a guiar com rapidez.

"Quanto a estes concorrentes, vários deles jovens muito talentosos e com imenso potencial por explorar, a modalidade revela sempre um profundo desdém em ousar pensar fora da caixa." 

Um olhar atento à totalidade do plantel que integra os Ralis do C.P.R permite, aliás, a constatação de todos os pilotos de maior relevo do nosso país serem já ou estarem perto de entrar no clube dos quarentões, facto a recomendar, na nossa opinião, uma reflexão abrangente acerca da sustentabilidade deste desporto dentro de alguns anos em Portugal. 

O desafio Khumo assenta em pressupostos interessantes com vista a esse processo de – alguma - regeneração geracional. 

Mas pode-se e deve-se, com alguma ambição, procurar ir um pouco mais longe. 

III)

Atente-se nos seguintes nomes, trazidos agora à liça a título meramente indicativo: Diogo Gago (26 anos); Pedro Antunes (24 anos); Daniel Nunes (30 anos); Diogo Soares (22 anos) e David Brites (27 anos). 

São jovens. 

São portadores de insuspeito talento. 

Todos ostentam títulos inscritos nos respetivos palmarés. 

Em comum, não obstante realidades diversas – umas mais otimistas, como no caso de Gago e Antunes, outras nem tanto, como no exemplo de Brites - a marcar o momento atual dos respetivos percursos desportivos, une-os o facto de se encontrarem num certo limbo face à aparente falta de patrocínios para se guindarem a mais altos desafios – entenda-se: carros com as especificações R5, os únicos, em suma, a possibilitar-lhes ganhar provas e campeonatos -. 

IV)

A questão da escassez de apoios e de como tal óbice tem historicamente impedido em Portugal a evolução de vários talentos nos Ralis é endémica e quase cultural

Várias centenas de milhares de euros são hoje em dia o dote necessário por época para entrar na restrita dança dos candidatos ao título do C.P.R. 

A fasquia só está ao alcance de pilotos profissionais patrocinados por grandes companhias – são infelizmente poucos nessas condições - ou de concorrentes ligados pessoal ou familiarmente a empresas já com alguma dimensão. 

, é certo, indicadores positivos de inversão desta tendência. 

Começa-se a contratar em função da qualidade. 

A Hyundai envolveu-se no escalão maior da modalidade no nosso país, apoiando de forma oficial duas viaturas. 

A MCoutinho regressou aos Ralis para apostar na presença de Diogo Gago na Peugeot Rally Cup Ibérica, quem sabe, assim o desejamos, a mola impulsionadora para desalavancar em definitivo a carreira do jovem valor algarvio. 

Nos Açores, a Play Auto Açoriana Racing resgatou Bernardo Sousa do regime de licença sabática para lhe confiar um Citroen DS3 R5, com vista à participação de campeão nacional de 2010 na atual temporada regional de Ralis daquele arquipélago. 

São certamente boas notícias. 

"Dentro de Portugal há alguns pilotos com viaturas R5 ao seu dispor a se acharem ungidos por um direito superior, quase divino ou com o seu quê de nobiliárquico, de terem o exclusivo de lutar pelas vitórias à geral em cada Rali e de apenas eles poderem sagrar-se campeões nacionais no final de cada época." 

Talvez um prenúncio de alguma mudança. 

, porém, muito caminho a trilhar e muita pedra a partir para se construir um contexto favorável à aparição e crescimento de novos talentos neste nosso desporto e neste nosso país. 

A via regulamentar seria um passo sólido nesse sentido. 

Aqui ao lado, em Espanha, o campeão nacional em 2016 – na vertente de asfalto – foi-o aos comandos de um carro de grupo N com a especificação R4 liberalizado - porventura “demasiado” liberalizado, apontam alguns… - do ponto de vista dos regulamentos. 

Nuestros Hermanos foram em certo sentido pioneiros, há cerca de uma dúzia de anos, na recuperação dos carros de GT como bólides capazes de entrar na orla vitoriosa dos Ralis em asfalto. 

Por lá admitem-se veículos tidos por bizarrias em Portugal como os N5, os Maxi Rally ou protótipos com base algo artesanal

A filosofia, à qual aderimos, é em si mesma simples: não fazer depender a competitividade e o escalonamento das classificações, em cada Rali e/ou numa competição no seu todo, única e exclusivamente do fator dinheiro

Do lado de lá da fronteira o primado é, como deve no plano dos princípios ser, tendencialmente premiar o talento e a rapidez. 

É acima de tudo a emanação de uma mentalidade diferente da nossa. 

V)

Dentro de Portugal, onde temos um campeonato em vários aspetos a pedir descomplexadamente meças a quase todos os seus congéneres europeus, há alguns – não todos - pilotos com viaturas R5 ao seu dispor a se acharem ungidos por um direito superior, quase divino ou com o seu quê de nobiliárquico, de terem o exclusivo de lutar pelas vitórias à geral em cada Rali e de apenas eles poderem sagrar-se campeões nacionais no final de cada época. 

É um pouco como se os grandes do futebol português, por investirem – gastarem, se o caro leitor preferir – mais dinheiro comparativamente com as demais equipas da primeira liga, entendessem justificado entrar em campo a cada partida com doze, treze ou catorze jogadores. 

Um campeonato de Ralis deve premiar os dígitos do cronómetro. 

Um campeonato de Ralis não deve estar coagido regulamentarmente pelos dígitos do IBAN

Para os Ralis portugueses não carpirem mágoas relativamente aos “talentos perdidos”tantos ficaram pelo caminho no passado -, há pelo menos o dever de estudar formas eficazes para proporcionar melhores oportunidades a quem procura evoluir neste desporto. 

A via regulamentar, vitaminando carros neste momento enquadrados nas divisões inferiores do C.P.R, pode para o efeito, como salientámos, ser um princípio e uma base de trabalho. 

Tudo, no fundo, para os Gagos, Antunes, Nunes, Soares e Brites da modalidade possam ter condições de acesso a carros mais performantes, sem tal implicar grande alocação de meios financeiros para o efeito. 

Ou será o incómodo para uma determinada elite não tanto os carros ao dispor destes pilotos mais jovens, mas antes eles próprios e a respetiva rapidez já em múltiplas ocasiões amplamente demonstrada nos troços nacionais?

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A FOTO DE ABERTURA DO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://www.ewrc-results.com/image/338107/

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