P.E.C. Nº 426: Sintra; senhora com charme que se sabe fazer desejar...



I)

Não é fácil delimitar com precisão os parâmetros para definir um “bom” calendário de provas integradas no Campeonato de Portugal de Ralis

Nesta matéria, o conceito de “bom” para o comum adepto pode estar nos antípodas da ideia de “bom” para os concorrentes.

Tal como, noutro quadrante, a noção de “bom” para as equipas/preparadores pode não merecer necessariamente a mesma avaliação quanto às entidades organizadoras das provas.

Não obstante a dificuldade em consensualizar o tema, atrevemo-nos, ainda assim, a antecipar o nosso próprio juízo de opinião sobre um “bom” calendário quanto ao C.P.R.

Será o conjunto de provas capaz de ir de encontro à matriz histórica da modalidade, mas sem perder de vista a necessidade de procura de novos ou renovados caminhos.

Uma premissa é fundamental em toda esta esquematização: tentar levar as emoções dos Ralis onde estão as pessoas.

II)

O atual Campeonato de Portugal de Ralis continua a manter no seu núcleo de provas referências incontornáveis como Fafe, São Pedro de Moel, Madeira, Açores ou Monchique.

Com a reintrodução do Rali de Portugal no corpo de eventos pontuáveis para o escalão maior da modalidade no nosso país, resgataram-se para as provas de estrada internas paragens como a Cabreira, Marão ou Ponte de Lima.

Castelo Branco é, desde 2014, um bom exemplo de como, volvida uma trintena de anos, os Ralis nacionais souberam recuperar património do passado devolvendo-lhe atualidade.

Mortágua, há já uma dúzia de anos vem-se afirmando enquanto passagem obrigatória do C.P.R a cada temporada.

Mesmo na época desportiva já em curso, as classificativas de asfalto do eixo Amarante/Baião materializarão, lá mais para setembro, o efeito de novidade sempre necessário à revitalização desta vertente do automobilismo, indiscutivelmente a mais popular dentro deste nosso retângulo à beira-mar plantado.

Com a introdução de novos Ralis há, claro, o natural reverso da medalha.

para nos balizarmos nos últimos vinte anos, perderam-se neste percurso zonas importantes na história deste desporto em Portugal como as Serras de Arga ou da Freita, além de referências como Viseu, a região de Lafões, Figueira da Foz, Figueiró dos Vinhos ou Oliveira do Hospital.

Neste lapso de tempo procurou-se levar o nosso campeonato maior até Santo Tirso, Guimarães, Sever do Vouga/Vale de Cambra ou a Trás-os-Montes.

Por diversas ordens de razão os Ralis ali realizados não vingaram e foram sol de pouca dura.

III)

A trilogia Arganil/Góis/Lousã é, apesar de tudo, credora de análise diversa.

Trata-se de uma região do país com estradas ímpares para disputar Ralis.

Ilustra algumas das mais belas páginas conhecidas dos Ralis nacionais.

Não obstante algumas iniciativas avulsas - e algo isoladas no tempo - a relembrar a ligação de tais paragens às provas de estrada, e sem embargo, também, das profissões de fé entoadas pelos sucessivos poderes públicos locais em torno da modalidade enquanto “fator de desenvolvimento” ou “polo dinamizador” daquelas comunidades, a realidade demonstra não existir um interesse efetivo em colocar tais “catedrais” ao serviço do C.P.R.

Os Ralis poderiam assumir-se, sobretudo em Arganil, como uma marca própria de excelência produzida pela região – veja-se o belíssimo exemplo de Fafe -.

Se quisermos: vendável enquanto produto genuíno e certificado com o respetivo selo de garantia.

O passar do tempo vai tornando Arganil cada vez menos uma “catedral”.

Os anos avançam a ritmo frenético e Arganil é cada vez mais – apenas – uma memória.

Pedaços de riquíssima e vasta história a amarelecer como papiro velho.

Pode haver a cada época desportiva C.P.R sem Arganil?

Pode.

Mas não é, mesmo passados mais de quinze anos, a mesma coisa.

IV)

Aqui chegados, recordamos, então, duas frases acima redigidas neste mesmo texto, para ajudarem o caro leitor a compreender melhor o que escreveremos de seguida: o “bom” calendário do C.P.R «será o conjunto de provas capaz de ir de encontro à matriz histórica da modalidade, mas sem perder de vista a necessidade de procura de novos ou renovados caminhos. Uma premissa é fundamental em toda esta esquematização: tentar levar as emoções dos Ralis onde estão as pessoas.».

Durante mais de um quarto de século, mais concretamente entre 1965 e 1991, o Rali das Camélias foi uma das provas mais populares da modalidade em Portugal, alcandorando-se por tal facto e com inteira justiça ao estatuto de clássico dentro do nosso campeonato nacional.

O pano de fundo do evento, naqueles anos, foi um dos pórticos mais grandiosos dos Ralis em todo o mundo: a majestática Serra de Sintra, sem esquecer, pelo menos nas derradeiras ocasiões nas quais a prova integrou o nacional de Ralis, a região de Mafra e algumas das estradas ao redor do Palácio Nacional desta vila.

Motivos de diversa ordem concorreram para o fim do Rali das Caméliasentre 1993 e 1995 disputou-se enquanto Rali de clássicos -.

Não os iremos aprofundar, até porque muitos deles não os conhecemos com suficiente abrangência e extensão.

Porém, não se pode dissociar o fim da prova das restrições a nível ambiental então levadas a cabo, certamente desincentivadoras da presença de grandes multidões nas florestas da Serra de Sintra.

Sem público qualquer prova tenderia na altura, com tende agora, a perder fôlego.

Sem permissão para realizar de provas de estrada nas lendárias classificativas sintrenses, o Rali das Camélias perdeu a sua entidade, não se conseguiu reinterpretar e entrou em lenta agonia para soçobrar algum tempo depois.

V)

Um conjunto de saudáveis "teimosos" está, todavia, firmemente apostado em não deixar a prova perder-se nos flashes algo difusos da memória coletiva.

A materialização em termos práticos dessa "teimosia", já tem, aliás, data: 30 de novembro e 1 de dezembro de 2018 estão reservados em definitivo no calendário automobilístico português como os dias nos quais irá para a estrada a – agora - trigésima edição do Rali das Camélias.

A prova tem vindo cirurgicamente, passo a passo, a ser divulgada no Facebook.

Tanto quanto julgamos saber há uma equipa no terreno a trabalhar nos preparativos do evento, capitaneada por Luís Caramelo.

O vasto currículo do antigo jornalista ao serviço da RTP – quem não se lembra dos memoráveis diretos do Rali de Portugal em tempos idos? – dispensa apresentações, conferindo desde logo um cunho de credibilidade à ideia de revitalizar o Camélias.

Passou em início de carreira pela redação do AutoSport, foi diretor de prova do Rali de Castelo Branco em 2014 – por sinal, considerado pelos observadores da F.P.A.K o melhor em toda essa época dentro do campeonato nacional -, integrou e foi um dos rostos cimeiros da equipa de Artur Lemos candidata aos órgãos sociais da FPAK em 2013, além de, entre outros pontos de destaque, ser conhecido como administrador do portal Portugal MotorSport no âmbito do Facebook e responsável pela organização dos Portugal MotorSport Awards, por norma anualmente atribuídos a diversas personalidades de destaque dentro do automobilismo nacional.

Trata-se de alguém com pensamento próprio e, sabemos, portador de firmes e interessantes ideias para os Ralis.

Tem larga experiência e conhecimento profundo dos meandros da modalidade no nosso país.

Em suma: Luís Caramelo é o garante de à partida estarem reunidos os condimentos para o renovado Rali das Camélias poder ser um caso de sucesso, a breve prazo firmando-se de novo, quem sabe, como uma das etapas “intocáveis” do Campeonato de Portugal de Ralis.

Sem se conhecer com exatidão o percurso seletivo de prova, sabe-se para já estar garantido o regresso dos mais modernoscarros de competição às estradas de Sintra.

Se outras notícias não houvessem, só essa, pelo óbvio simbolismo e relevância, seria suficiente para colocar as expetativas para a prova muito elevadas a todos os agentes da modalidade.

A perspetiva de passados tantos anos – e quando praticamente já ninguém julgaria ser possível – poder ver e ouvir a evolução de automóveis de competição, em competição “a sério”, no gancho ou no salto da Peninha, no cruzamento da Pena ou na curva da Santa, assume foros emocionais muito fortes.


Talvez parta daí uma forma eficaz de vender este Rali a potenciais interessados em participar: fazer passar a mensagem da oportunidade histórica, no limite única, de –
- conduzir em estrada fechada nas míticas classificativas de Sintra.

Além do prazer da condução desportiva contra o cronómetro, a possibilidade de guiar naquelas estradas pode - deve? - ser vendável como um privilégio ou até uma honra para qualquer piloto.

Um dos aspetos mais importantes do trabalho até ao momento desenvolvido por parte dos organizadores deste evento, passa pela aparente tentativa de atrair pilotos na “reforma” a retirarem fatos, capacetes e luvas do armário e, literalmente, “fazerem-se à estrada”.

A fórmula encontrada, indo à procura de equipas/preparadores com carros para alugar e fazendo, depois, a respetiva publicitação – valor/custo por quilómetro, modelo e caraterísticas do carro – publicamente junto de potenciais interessados em alinhar no evento, reveste um caráter inovador.

A ideia é muito positiva e abrangente.

Organizar um Rali aberto a pilotos já com carro próprio, mas inclusivo quanto aos pilotos – quem é piloto nunca deixa de ser piloto, mesmo com o fato, botas, luvas e capacete perdidos lá pelo fundo do baú há já algum tempo… - sem carro ao dispor.

Incomum nas provas de estrada do nosso país é, também, haver um caderno de encargos bem planificado para o próximo Rali das Camélias, acompanhado por um calendário detalhado e a mostrar-se escrupulosamente executado com devida antecedência, longe, portanto, daqueles improvisos de última hora tão frequentes no contexto dos Ralis Nacionais.

Sintra está, portanto, de volta.

Sintra é uma das marcas incontornáveis dos Ralis em todo o mundo.

Não obstante a data da prova, em final de temporada – onde por tradição os orçamentos para competir se encontram já deveras exauridos para um conjunto considerável de pilotos -, não é despiciendo o cenário de voltar a ver os bosques de Sintra engalanados por uma grande moldura humana.

Promova-se a prova talvez a partir daí: duma fábula encantada agora tornada realidade.

Venda-se o próximo Camélias como um reencontro com o passado perspetivando presente e futuro.

Repesquem-se figuras tutelares do passado - convidar Alén, Mikkola, Joaquim Santos ou Mário Silva, confiando-lhes os “0”, seria uma boa ideia, caso não se mostre viável, claro está, fazê-los alinhar enquanto concorrentes – para funcionarem como testemunhos vivos de algumas das mais épicas páginas de toda a história dos Ralis, nacional e internacionalmente.


Aposte-se desde já na gestão de expetativas coletiva quanto ao regresso dos Ralis à região de Lisboa, uma das duas grandes manchas urbanas de Portugal.

Lapide-se do ponto de vista mediático o diamante em bruto construído por um universo de vários milhões de portugueses residentes num perímetro de poucas dezenas de quilómetros a partir do epicentro do evento.

Seduza-se os mais destacados pilotos nacionais da atualidade, sinalizando-lhes uma participação no próximo Camélias como a melhor forma de conhecer o terreno e preparar conveniente este Rali, caso ele se aventure para mais altos voos nos próximos anos.

Criem-se motivos para levar pessoas às classificativas: para os aficionados o apelo de Sintra é quase por si só suficiente, mas estenda-se o âmbito do trabalho a quem está distante da modalidade e pode vir, se bem cativado, a deixar de estar.

Insista-se com abundância na ideia deste Rali ir funcionar como um acontecimento, uma festa e uma celebração.

Presumimos haver uma ideia ambiciosa em paralelo à repescagem do Rali das Camélias já em 2018, a qual funcionará, pensamos, como balão de ensaio para a reintegração do mesmo no calendário do Campeonato de Portugal de Ralis, senão já em 2019 pelo menos para 2020.

Troçosdo melhor em Portugal para Ralis em asfalto – há.

O apoio das forças vivasleia-se municípios – da região litoral a oeste de Lisboa parece ter condições para ser efetivo e, espera-se, duradouro.

uma entidade a trabalhar muito e bem, oferecendo garantias de elevados padrões organizativos para a prova, de acordo, aliás, com os pergaminhos do evento.

Neste processo nem todo serão rosas.

Espera a Luís Caramelo e demais equipa de entusiastas um trabalho longo pela frente.

Acima de todo, o maior obstáculo a deparar-se ao renovado Rali das Camélias serão os paradoxos relativamente aos quais esta modalidade vive tantas vezes presa e em estado de dependência.

Diz-se, e muito bem, haver necessidade de levar os Ralis de encontro onde estão as pessoas.

Pois muito bem: a oportunidade para o efeito está aí, ao virar… - entre outros - dos ganchos da descida da Pena!


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AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://riodasmacas.blogspot.pt/2007/01/o-rali-das-camlias.html
- https://www.dn.pt/motor-24/interior/e-se-sintra-voltar-ao-nacional-de-ralis-9046332.html

- https://www.facebook.com/pg/ralicamelias/posts/

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