P.E.C. Nº 429: Ponto de partida: Rebordões. Ponto de chegada: um lugar na História!


A presente temporada de Ralis tem sido do ponto de vista pessoal - e na qualidade de adeptos - algo atípica para nós, «Zona-Espectáculo»

Excetuando o Rali de Portugal, imponderáveis de diversa ordem têm impedido de nos deslocarmos mais frequentemente, como aliás gostaríamos, às provas do Campeonato de Portugal de Ralis

As nossas faltas justificadas têm sido parcialmente colmatadas acompanhando à distância as peripécias das cinco etapas do campeonato cumpridas até ao momento. 

Os relatos escritos e visuais disponibilizados na imprensa e nas redes sociais têm-se mostrado fundamentais para firmarmos uma opinião sobre o momento atual da modalidade. 

Não é especialmente motivador escrever sobre os Ralis portugueses quando temos um campeão nacional - e aqui a distinção irreleva em absoluto, por o fundamental ser o homem e não o piloto – em situação clínica conturbada e indefinida após violento acidente sofrido na última prova do C.P.R

No entanto, permitimo-nos, ainda assim, dar de seguida algumas achegas pessoais quanto a um dos aspetos a nosso ver marcante na época desportiva de 2018: o regresso de Armindo Araújo à alta-roda dos Ralis

Após meia-dúzia de anos de ausência da competição e de uma dúzia afastado do nosso campeonato nacional – salvo participações esporádicas -, o tetracampeão nacional logrou reunir, como de resto sempre o afirmou como requisito indispensável para regressar, uma série de condições para ir buscar fato, botas, luvas e capacete ao armário. 

A aposta do Team Hyundai Portugal nos Ralis como forma de divulgação dos seus produtos e reforço da sua imagem de marca transformou-se, assim, na mola impulsionadora para tirar Armindo da "reforma"

Ainda bem. 

Em abstrato é francamente positivo para a modalidade quando qualquer um dos seus nomes mais emblemáticos está dentro e não fora dela. 

Antes da temporada de 2018 começar e a partir do momento em que o projeto foi oficialmente confirmado, levantaram-se, com alguma legitimidade, um conjunto de questões. 

A primeira e mais óbvia: acusaria o bicampeão do mundo de produção o peso da ausência dos Ralis por tanto tempo? 

Tal dúvida era razoável no imediato – primeiras provas do ano – mas se levássemos em linha de conta, no passado, a abordagem metódica do piloto de Santo Tirso aos Ralis, então seria uma questão de tempo até se familiarizar com o paradigma atual deste desporto, necessariamente distinto daquele que conheceu até 2012. 

À partida para este novo programa, a Armindo Araújo deparava-se todo um mar de desafios. 

Um deles seria recuperar com celeridade a forma física necessária para conduzir um carro com as exigências – travagem, aceleração e aderência em curva, sobretudo estas – dos modernos R5

Outro, não menos relevante, constituía em readquirir os reflexos/mecanismos para tocar afinadamente a orquestra constituída por volante, caixa, travão de mão e pedais da sua nova montada. 

Neste leque de considerações não podemos esquecer, em paralelo, a obrigatoriedade do piloto, em sistema de contrarrelógio, ter trabalhado ativamente com vista a encontrar e seduzir parceiros – antigos e novos – para financiar o projeto. 

A montante destas questões acresciam outras dificuldades: ao facto de Armindo nunca ter conduzindo em competição automóveis com as especificações R5apenas conduziu muito circunstancialmente em 2011 um “primo afastado” da categoria S2000 – havia a aditar uma série de provas e muitos quilómetros de classificativas no calendário de 2018 absolutamente desconhecidas para o nortenho. 

Com tantas variáveis em equação encontraria Araújo, em suma, o ritmo e o foco

Volvida meia-temporada a resposta está cabalmente dada: o nativo de Rebordões lidera com autoridade o campeonato. 

Em quatro participações concluiu sempre dentro dos lugares pontuáveis – a reduzida propensão a erros como primeira condição de sucesso continua lá, intacta – e até ao momento somou três admiráveis triunfos nas contas do C.P.R. 

Objetivamente é muito. 

Mais até, quem sabe, que aquilo que o atual líder do campeonato terá projetado no início do ano como objetivo para esta fase da época, atentos os condicionalismos acima descritos. 

"Com tantas variáveis em equação encontraria Araújo, em suma, o ritmo e o foco? Volvida meia-temporada a resposta está cabalmente dada: o nativo de Rebordões lidera com autoridade o campeonato." 

trilhos para se perceber como Armindo chega, vê e vence no atual Campeonato de Portugal de Ralis

Um deles é a planificação e um bom trabalho de casa – leia-se: testar antes de cada prova -.

quem aborde as sessões de testes colocando o acento tónico no piloto. 

A ideia subjacente a esta filosofia privilegia sobretudo o incremento dos índices de confiança e a aquisição de ritmo competitivo por parte do condutor. 

O acumular de quilómetros apetrecha o piloto a melhorar as suas competências de condução. 

Mas mais quilómetros em treinos por si só não tornam a viatura mais rápida e ajustada à tipologia de estradas do Rali. 

Armindo compreende-o na perfeição. 

Fruto da sua experiência e intuição, sabe – e tem colocado esse pressuposto em prática – explorar toda a gama de afinações que o Hyundai i20 R5 tem para oferecer. 

Assim, uma boa preparação – de forma discreta, quase que num regime de treinos à porta fechada -, tem sido, portanto, um dos mais sólidos argumentos a justificar o êxito nas provas por si disputadas até esta altura. 

Para rematar a ideia: uma moeda tem valor numismático acrescido se as suas duas faces – entenda-se: carro e pilotos – estiverem cunhadas na perfeição. 

Noutro quadrante, Armindo Araújo não ignora nem alguma vez esqueceu, também, a importância de saber perceber e reagir prontamente aos vários momentos de que cada Rali é feito. 

Em Portugal as provas de estrada são com frequência estudadas na perspetiva do “marranço”: decora-se os trajetos das classificativas percorrendo-os em inúmeras passagens – necessariamente antirregulamentares, na maioria das ocasiões -. 

quem opte, num outro prisma, por assimilar o conteúdo dos Ralis através de uma “leitura na diagonal”, apressada e pouco dada a grandes rigores: duas passagens pelas classificativas no período de reconhecimentos, uma para tirar notas, outra para as validar, e fica a descodificação da prova feita. 

Armindo, sobretudo desde 2002 quando passou a integrar uma estrutura oficial potencialmente ganhadora, estará integrado num conjunto mais restrito de pilotos, cultores, digamos, de uma “terceira via” na abordagem aos Ralis. 

As provas de estrada leem-se e, ato contínuo, devem ser interpretadas

E a compreensão sobre aquilo que um Rali oferece em cada uma das suas diversas circunstâncias, é o melhor – ou pelo menos mais seguro – código para, depois, o concorrente aceder àquilo que a prova no seu todo tem para lhe dar. 

Nessa competência em concreto Armindo Araújo continua fortíssimo. 

Percebe quase na perfeição, como poucos, o género de andamento a implementar a cada momento de prova em função do resultado final a que se propõe chegar. 

A sinopse dessa capacidade dá pelo nome de estratégia, vital numa modalidade quase sempre mais magnânima a proteger os sagazes que os audazes

Ensinava-nos há alguns anos um amigo e antigo praticante de Ralis um postulado muito simples: o piloto vencedor é aquele que conduz sempre com o sentido de cronómetro na cabeça. 

Tal axioma encaixa na perfeição à abordagem de Armindo Araújo aos Ralis. 

É possível, portanto, que num exercício de imaginação dentro do Hyundai líder do C.P.R, seja mais audível o tic-tac do relógio que o ranger de dentes do condutor. 

Assim se explica como a fiabilidade acasala na perfeição com a rapidez. 

"E a compreensão sobre aquilo que um Rali oferece em cada uma das suas diversas circunstâncias, é o melhor – ou pelo menos mais seguro – código para, depois, o concorrente aceder àquilo que a prova no seu todo tem para lhe dar. Nessa competência em concreto Armindo Araújo continua fortíssimo."

Dessa forma se compreende, pois, como Araújo é, pelo menos para já, líder confortável do Campeonato de Portugal de Ralis. 

Outro dos aspetos reconhecidos no Armindo safra 2018 e já contidos na filosofia dos seus melhores anos é, quanto à condução propriamente dita, a resolução quase perfeita da dilemática entre a entrada e saída da curva – percetível nas múltiplas imagens em vídeo que observámos para a realização do presente trabalho -. 

O tetracampeão nacional continua, na nossa perceção, fortíssimo e eficaz à saída da curva. 

O cronómetro, sempre libidinoso, agradece. 

Fruto, acreditamos, de um apurado processo de treino intuitivo, o tirsense breca, agora como antes, no sítio certo à hora certa. 

Em abstrato a opção pela travagem no limite, “atirando” com o carro para o interior da curva, obriga a um processo mental de escolhas. 

Ou compensar a velocidade em excesso recorrendo ao volante – exercício não isento de falhas e em diversas ocasiões a ter como contrapartida um preço elevado, pago com saídas de trajetória ou, no limite, de estrada -. 

Ou ser mais “conservador”, optando por desenhar a curva explorando antes de mais as qualidades dinâmicas do bólide. 

Araújo estará integrado neste segundo lote. 

O dos pilotos que não arriscam travar tarde para não comprometer a hipótese de acelerar cedo. 

Em jeito de resumo, com o presente trabalho pretende-se sinalizar a ideia de um processo muito rápido – os resultados são a melhor chancela quanto a tal facto – de readaptação de Armindo Araújo aos Ralis e ao nosso campeonato nacional. 

na ternura dos quarenta, mantém todavia intactos os predicados bem conhecidos até há meia-dúzia de anos, transformando-o, oculto sob a capa de uma grande confiança e serenidade, num contendor terrível. 

Caso mantenha a atual argúcia competitiva e não se depare com aqueles imponderáveis nos quais os Ralis são férteis, vai com boa dose de probabilidade chegar a um quinto e inédito título de pilotos em Portugal. 

Nesse cenário, caso confirme a supremacia patenteada nesta primeira parte de temporada, ultrapassará o estatuto de campeão – onde reside um conjunto de outros notáveis pilotos – para, naquilo que julgava inimaginável há pouco mais de meio ano, se guindar à condição de absoluto aclamado. 

Reafirmamos: Armindo Araújo regressou aos Ralis aprimorando todos predicados que no passado lhe construíram um palmarés sem par em Portugal. 

Veio, como já enfatizou com particular nitidez, para vencer. 

A sua qualidade de condução continua materializada em elevados patamares de eficácia – embora já certamente não guie quilómetros a fio, porque os automóveis são hoje conceptualmente diferentes, com a mão esquerda no volante e a direita na alavanca da caixa de velocidades, como fazia antes em verdadeiros regalos de destreza e coordenação motora -, algo que melhor que nós os resultados verdadeiramente demonstram. 

As diferenças do Armindo de agora e de outrora verificam-se apenas noutro plano. 

não é o puto-sardento-trinca-espinhas-com-sorriso-traquina de outros tempos. 

A sua face a espaços vai aqui e ali demonstrando um outro sulco: são, nele e em todos nós, os entas a queimar curvas escavando epiderme. 

No entanto, a expressão serena permanece imutável e o regresso à modalidade onde foi – e continua a ser - feliz está a devolver-lhe o conhecido olhar tão cintilante quanto a mais potente rampa de faróis

There´s a light that never goes out!...

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://www.sapo.pt/noticias/motores/armindo-araujo-um-hyundai-na-frente-sera_5a47d52e3dbade020c465e11

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