P.E.C. Nº 13: Magalhães & Magalhães - Compª, Ldª.


[Foto obtida em: http://www.peugeot.pt/palmares-da-equipa/]

Debaixo de um admirável concentrado de incerteza, drama e emoção, a edição de 2010 do Rali dos Açores - do soberbo Rali dos Açores, acrescentamos... - viu finalmente a Peugeot Sport Portugal chegar aos triunfos no Intercontinental Rally Challenge.

Esta é uma vitória que a formação de Alfragide há muito perseguia.

Desde que, em 2007, a aposta dos comandados de Carlos Barros incidiu sobre o Peugeot 207 S2000, legitimamente a equipa ambicionava o êxito máximo na competição apoiada pelo canal televisivo Eurosport.

Várias vezes esteve perto de o conseguir.

Ocasiões houve, dentro das participações nas últimas edições dos Ralis da Madeira e Açores - sempre que integrados no calendário do I.R.C. -, bem como no Rali de Portugal de 2008, em que o triunfo escapou por muito pouco, fosse pelo facto de a concorrência se mostrar mais forte e/ou melhor equipada, fosse pela má fortuna que a espaços acompanhou a estrutura da marca do leão sedeada em Alfragide.

Seja como for a vitória nos Açores, não isenta de peripécias dignas de um argumento da melhor inspiração hitchcockiana, além de se nos afigurar ser mais que merecida, acaba por ser o justo corolário de um notável trabalho levado a cabo nos últimos 3 anos.

Em jeito de balanço e independentemente deste triunfo, entendemos estar a ser extremamente positiva esta renovada internacionalização da Peugeot Sport Portugal.

Vozes menos avisadas têm, em alguns quadrantes, assestado baterias contra a equipa lusa, alicerçando as respetivas críticas no facto de os resultados estarem aquém daquilo que seria de esperar e, sobretudo, muito abaixo dos êxitos obtidos no campeonato nacional de Ralis num passado recente.

Os contextos são, como é óbvio, diametralmente opostos: a todos os níveis.

Desde logo porque tem sido bem claro que, em 2010, o estádio evolutivo do 207 S2000 está a esgotar-se.

Se em anos anteriores o carro da marca francesa escolhido para corporizar a sua participação no I.R.C. era o bólide a bater, na atualidade tal panorama alterou-se substancialmente.

O modelo da Skoda - apoiado diretamente pela marca de Mlada Boleslav - e da Ford - saído dos estiradores e produzido pelo departamento da M-Sport - são hoje as viaturas mais competitivas naquela competição.

Kris Meeke, campeão em título e aposta principal da marca de Sochaux para a revalidação do cetro, tem vindo a tentar operar alguns milagres com o 207 S2000 da estrutura britânica da Peugeot.

É notório, porém, que o está a fazer forçando bastante os seus próprios limites e os da sua montada.

O reflexo disso tem sido uma temporada até ao momento caracterizada por múltiplos acidentes e saídas de estrada.

Todos estes fatores, ajudam-nos a compreender a importância e a magnífica prova que Bruno e Carlos Magalhães protagonizaram nas classificativas da ilha de São Miguel, abonando muito favoravelmente o trabalho que tem vindo a ser realizado pelo departamento de competição da Peugeot em Portugal.

Assegurado o indispensável suporte financeiro para participar na presente temporada do I.R.C. com garantias mínimas de competitividade, ainda que não com um programa completo, Carlos Barros e demais equipa foram até ao momento extremamente realistas na abordagem aos Ralis entretanto disputados.

Em abstrato, há dois vetores fulcrais para se fazer Ralis com sucesso: experiência e conhecimento.

Ora à exceção da Madeira e Açores, tais requisitos eram justamente aquilo que a Peugeot Sport Portugal não reunia em cada Rali do calendário desta competição, alguns deles muito específicos e peculiares como o Monte Carlo ou Ypres.

Daí que a aposta tenha-se centrado, julgamos, prioritariamente em acumular quilómetros e concluir Ralis, sem ímpetos desnecessários.

O capital de experiência e informação entretanto adquiridos, quer dos pilotos, quer dos demais elementos da equipa, tem vindo a ser a base de uma excelente temporada, extremamente regular, sem oscilações competitivas de maior.

A honestidade e o pragmatismo que têm vindo a ser depositados nesta aventura fora de portas poderão, assim o desejamos, ser o mote para futuras participações ao mais alto nível no âmbito dos Ralis internacionais, até porque os pergaminhos da equipa no campeonato europeu de 2003 - surgindo o experiente e laureado navegador Carlos Magalhães como denominador comum entre essa participação e a atual - ou nas provas que disputaram no mundial de 2004 - pontuando no Rali de Chipre, com um meritório 8º lugar final - nesse sentido apontam.

Os dias românticos do permanente maximum attack são passado.

Caso a Peugeot Sport Portugal optasse estrategicamente por provocar os limites daquilo que neste momento lhe é possível realizar, adotando ritmos que o desconhecimento das caraterísticas dos Ralis desaconselhavam, iria pagar bem caro essa ousadia.

À exceção do próximo Rali da Madeira - do qual esperamos novas façanhas -, caso a equipa mantenha, como acreditamos, o registo coerente que tem vindo a pautar a sua atuação até agora - garantidos que estejam os indispensáveis requisitos para o fazer -, vai concluir o I.R.C. de 2010 em posição de grande destaque, face a adversários de enorme valia e a estruturas desportivas bastante conhecedoras de todas as provas da temporada, além de incomparavelmente melhor dotadas em termos de meios técnicos, humanos e financeiros.

Quanto a Bruno e Carlos Magalhães, enquanto expoentes perfeitos das estratégias gizadas por Dom Carlos Barros, vão continuar a interpretar fielmente o sentido de aventura do seu homónimo Fernão, lá nos idos de quatrocentos e quinhentos.

Onde antes se cruzavam mares, hoje atravessam-se classificativas.

Os 'estreitos' de outrora foram substituídos por percursos de ligação.

Os portos de abrigo transformaram-se em parques de assistência.

O que não deixa porém de ser certo é que, ao contrário de uma certa rapaziada mais dada às artes do pontapé na bola, os 'navegadores' do nosso orgulho e contentamento são mesmo a dupla de Magalhães que tem vindo a tripular uma 'nau' denominada Peugeot 207 S2000, com inegável bravura e inusual sentido patriótico.

Que continuem assim: por vitórias nunca antes alcançadas!

[Rui Pelejão, em feliz editorial publicado na revista Autosport nº 1734, aborda lucida e oportunamente a ausência de cobertura noticiosa por parte dos órgãos da imprensa generalista - com especial incidência nas estações de televisão - relativamente ao Rali dos Açores, em manifesto contraste com o destaque concedido ao aparatoso acidente protagonizado por Francisco Carvalho durante uma das corridas da Léon Supercopa disputada no circuito britânico de Brands Hatch - do qual não sobrevieram felizmente mazelas físicas para o consagrado piloto da cidade da Guarda -. 


Não obstante concordarmos na íntegra com o diagnóstico traçado pelo diretor da AutoSport, pensamos todavia que a discussão sobre esta matéria é mais vasta e abrangente. 

Em pleno sec. XXI, com o advento da massificação informativa, receamos ser ainda demasiado ineficaz e insípida - para não dizer praticamente inexistente - a forma como os principais atores do desporto automóvel em Portugal, com especial incidência nos pilotos e equipas, se divulga, comunica e interage com os órgãos de comunicação social.

O sinal dos tempos é claro. 

Quem não aparece, esquece: quem não faz por aparecer, inexiste. 

O futuro do automobilismo português passa em grande medida também por aí: dar-se a conhecer, libertando-se de uma certa redoma que o tem fechado sobre si próprio].


Bruno Magalhães/Carlos Magalhães, RALI CENTRO DE PORTUGAL/2009: 
[São Pedro '1' - 7,90 kms -]

Bruno Magalhães/Paulo Grave, RALI DE PORTUGAL/2007: [Silves/Ourique '2' - 30,69 kms -]

Comentários

  1. A critica que Rui Pelejão faz à imprensa generalista é um barrete que lhe encaixa na perfeição. Pelejão sabe (tem obrigação de saber, a administração 'obriga-o' a saber...) o que vende e o que não vende, e ele (como qualquer outro no seu lugar, não vale a pena sermos ingénuos) limita-se a 'surfar a onda' e a fazer o melhor que pode para manter o seu lugar e o dos poucos que com ele trabalham. Caso contrário - ou seja, se ele fosse real e efectivamente consequente com essa crítica - o (ou 'a') Autosport seria bem diferente e o respectivo site bem melhor potenciado. E aí talvez tivesse mais autoridade para criticar os outros...

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