P.E.C. Nº 16: A minha primeira experiência no banco direito de um carro de Ralis...



Em 27 de julho de 2008, publicamos no fórum online da revista AutoSport [http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/55077] o relato daquele que foi, 6 dias antes, o nosso «ritual de iniciação» no interior de um carro de Ralis.

A experiência foi de tal forma gratificante que, passados mais de dois anos, ainda hoje tem espaço privilegiado nas nossas melhores memórias.

É esse texto, com correções e adaptações de pequena monta, que Zona-Espectáculo agora republica.

"Durante o fim-de-semana do campeonato do mundo de carros de turismo [W.T.C.C.] disputado no autódromo do Estoril, [dias 12 e 13 de julho de 2008, n.d.r.] o meu amigo Miguel Lacerda, dentro da enorme agenda de conhecimentos e contatos que possui no mundo dos desportos motorizados, alvitrou a hipótese de eventualmente eu poder fazer um «co-drive» sentado no «Fiat Grande Punto S2000» da equipa «Fiat Vodafone Portugal», com o piloto José Pedro Fontes ao volante e na qualidade de cicerone, no âmbito dos testes que se iriam realizar com vista à preparação da fase de asfalto do Campeonato de Portugal de Ralis. 


Na altura, como não podia deixar de ser, fiquei de imediato muitíssimo entusiasmado com a perspetiva que me acabava de ser colocada, pois era uma experiência a não perder por nada deste mundo.

Contudo, não obstante o entusiasmo do Miguel, confesso que na altura me pareceu que tratando-se de uma sessão de trabalho da equipa, em que as baterias de todos os seus elementos estariam certamente assestadas em torno do desenvolvimento do carro, certamente tal seria algo improvável de acontecer. 

Mas aconteceu... 

1) INTRODUÇÃO:

Na passada segunda-feira [dia 21 de julho de 2008, n.d.r.], após um telefonema do Miguel Lacerda realizado um ou dois dias antes a confirmar o local e horário do teste, à hora de almoço e sob uma intensa canícula rumei à sempre lindíssima e verdejante zona de Castanheira de Pera, local onde a equipa «Sports & You» que presta assistência ao «Fiat Grande Punto S2000», iria realizar uma sessão de treinos preparatória da fase de asfalto do Campeonato de Portugal de Ralis. 

Confesso que durante o trajeto [aproximadamente 140 quilómetros], vários pensamentos iam assolando o meu espírito, sobretudo pela grande expetativa que a anunciada experiência estava a gerar a mim próprio.

Sempre tive a sensação que a vivência «por dentro» [no caso, em sentido literal], de um carro de Ralis seria seguramente potenciadora de reforçar o meu respeito [já de si enorme] pelos pilotos das provas de estrada, bem como pelos respetivos navegadores. 

E essa impressão não só se confirmou em pleno, como se tornou ainda mais abrangente. 

Mas já lá vamos! 

Pelas 14.00 horas chegava a Castanheira de Pera, e sem hesitações rumava à estrada que faz a ligação daquela vila à Lousã, palco, aliás, de muitos momentos inolvidáveis nos Ralis em Portugal. 

Não sabia em concreto o local do teste, mas o Miguel já me havia informado que seria naquela zona, pelo que confiei que com facilidade chegaria ao local dos camiões de assistência. 

Uns quilómetros mais à frente, já em plena subida, vislumbro uma fita da Vodafone a cortar um acesso à E.N. 236 e não havia que enganar: o local do «enredo» era por ali perto.

Estacionei o carro, o sol incidia de forma inclemente sobre mim, mas não se via vivalma nem se ouvia nenhum roncar de motores, pelo que decidi descer a pé até à povoação de Pera. 

Ali chegado, o cenário algo «desértico» mantinha-se e voltei a subir rumo ao meu carro, estacionado à beira da E.N. 236. 

Um dos elementos de apoio à equipa «Fiat Vodafone Portugal» havia ali chegado para proceder ao controlo e encerramento do trânsito, e de imediato lhe perguntei onde se situava a zona de assistência, tendo-me o mesmo simpaticamente informado que a mesma se encontrava uns 600 metros mais acima. 

Meti-me no meu carro e rapidamente fiz tal trajeto [bem mais que os tais 600 metros] e, no cruzamento para o «Poço da Neve», junto à casa do Guarda Florestal, ali estava bem visível o camião da equipa «Sports & You», bem como as tendas sob as quais repousavam, com pueril candura [monstros disfarçados de lobos], os dois «Grande Punto» tripulados habitualmente pelo José Pedro Fontes e pelo Nuno Barroso Pereira

2) NA ZONA DE ASSISTÊNCIA:

Ali chegado e mal havia saído do meu carro, logo o José Pedro Fontes de forma extremamente afável e simpática me abordou, questionando com um sorriso franco e aberto: 

"Então você é que é o amigo do Miguel?"

À minha resposta afirmativa e após a respetiva troca de cumprimentos, o talentoso e multifacetado piloto colocou-me completamente à vontade para seguir os testes na zona de assistência da equipa. 

Fi-lo naturalmente com o maior interesse e curiosidade, pois este trabalho «invisível» escapa muitas vezes à atenção das objetivas e é seguramente um fator que ajuda a perceber as múltiplas incidências que, à posteriori, ocorrem nas corridas propriamente ditas. 

Os carros começavam, logo após, a rodar na descida rumo a Pera e a fazer o percurso inverso até ao local onde nos encontrávamos, num trajeto muito sinuoso e cheio de curvas encadeadas, cenário similar, presumo, ao que irá ser encontrado no próximo Rali da Madeira. 

Os primeiros rounds foram sendo feitos pelos pilotos e respetivos navegadores e, chegados os carros à zona de assistência, lá vinham os indispensáveis computadores para parametrizarem todos os dados possíveis para análise. 

Logo aqui, deu para perceber a tecnologia envolvente a um bólide da categoria S2000 e o elevado grau de profissionalismo da equipa «Sports & You» na qual, aliás, todos os membros primaram sempre por uma enorme simpatia e boa disposição.

Os carros iam e vinham, faziam o seu maravilhoso ronco soar de forma esplendorosa pela Serra da Lousã, paravam na assistência, o José Pedro Fontes ia transmitindo aos engenheiros as sensações que tinha a cada modificação nas afinações do carro, sugerindo alterações, ele próprio colaborando ativamente na medição da temperatura dos pneus e do asfalto.

A certa altura perguntei-lhe como estava a correr o teste, tendo-me o mesmo referido que dadas as elevadíssimas temperaturas os dados para análise eram algo inconclusivos, mas que estava a gostar das reações do novo chassis.

Ainda lhe lancei uma pequena «provocação», ao «picá-lo» com a dificuldade de ganhar na Madeira, dada a valia da concorrência internacional que ali se vai apresentar, tendo-me o mesmo, sorrindo, desarmado com a mesma naturalidade com que tripula o seu bólide: 

"Pilotos internacionais? 

Ótimo! 

É mais motivador ainda".

Pensei com os meus botões rindo-me para mim próprio:

"Cala-te Nuno"...

... E voltei a seguir com todo o interesse este teste! 

As horas do dia iam passando e o próprio José Pedro Fontes já me havia informado que haveria certamente hipótese de eu «dar uma volta», pedindo-me compreensão para o facto de a mesma se ter de realizar já na parte final do dia, após a sessão de trabalho com a sua equipa e o seu navegador. 

Ainda falamos sobre o regresso do seu pai [Rufino Fontes, um dos «monstros sagrados» da pilotagem em Portugal] aos circuitos, e dos carros que a família possui na sua coleção, alguns deles verdadeiros testemunhos de vários dos melhores e mais empolgantes momentos da história do automobilismo português. 

O sol ia-se escondendo por detrás da Serra, e o grande momento estava-se a aproximar... 

Acabada a sessão de trabalho da equipa, havia 4 pessoas que ali estavam para fazer «co-drives», entre os quais aqui o vosso colega que ficaria para o fim. 

Não posso em bom rigor dizer que estava nervoso. 

Mas uma expetativa e entusiasmo enormes apoderavam-se progressivamente de mim. 

Estava imbuído, diria, de uma «tensão» muito positiva, sem se confundir com adrenalina ou euforia. 

Terminados os outros «co-drives», carro estacionado debaixo da tenda do parque de assistência, e eis que sou chamado: 

Diacho, era mesmo a minha vez!... 

3) DENTRO DO CARRO: 

Porta do carro aberta, e a primeira impressão foi que não obstante o vetusto roll-bar bem à vista, funcionando como uma espécie de «tranquilizante natural», a operação de entrada no carro é relativamente fácil.

Uma bacquet de navegador é muito confortável e tem um apoio lateral muito grande, encontrando-me eu sentado numa posição muito baixa, já atrás do pilar «B» do «Grande Punto». 

É quase como se estivesse sentado no banco de trás de um automóvel convencional, sem lá estarem os assentos da frente. 

Ainda pensei que pudesse ficar algo «preso» na bacquet dadas as minhas dimensões, digamos, mais «generosas» do que as do navegador do carro [António Costa], mas nada disso: estava sentado na perfeição. 

Logo de seguida, o António Costa auxiliou-me a colocar corretamente os cintos de segurança [com várias extensões, vindas de todos os lados: abdómen, debaixo das pernas, dos ombros, eu sei lá...] e, surpresa, cedeu-me gentilmente o seu capacete para que eu pudesse, através dos intercomunicadores, falar diretamente com o José Pedro Fontes

Meus amigos! 

Ainda o carro não tinha sequer o motor a trabalhar e eu já estava com uma sensação portentosa de total bem-estar e satisfação, «trajado a rigor» para aquela que se adivinhava vir a ser uma experiência arrebatadora. 

O António Costa fecha a porta e, quase de seguida, o Zé Pedro Fontes coloca o motor em marcha, aparecendo no generoso led eletrónico de indicação da velocidade engrenada, ao cimo do tablier e em posição central, algo que identifiquei como marcha atrás.

A primeira sensação, deslumbrante e maravilhosa, foi o soberbo barulho provindo do «coração» do «Grande Punto S2000» a entrar no cockpit. 

Uma verdadeira sinfonia de emoção. 

Ao contrário do que imaginei, o barulho no interior do carro não é excessivo como seria de pensar num automóvel de competição: tem o registo certo para nos contagiar com a sua fabulosa e orquestrada melodia, mas o carro é suficientemente bem insonorizado para nos permitir comunicar no seu interior de forma fluente e natural. 

Enquanto eu me dedicava a estes pensamentos, o José Pedro Fontes começa a fazer marcha atrás, tirando o carro da zona de assistência. 

Meia-volta, «Grande Punto» nos «blocos de partida» apontado para a descida, e aqui o velho Nuno a interrogar-se: e agora?... 

4) A DESCIDA:

Primeiros metros sem o José Pedro Fontes puxar muito pelo carro, desmultiplicando as mudanças de forma natural, sem forçar. 

A equipa já lhe tinha dado instruções, pelo que me apercebi, para realizar o trajeto de descida relativamente devagar. 

Repare-se: relativamente!... 

Após os primeiros metros, o José Pedro pergunta-me se alguma vez já tinha estado dentro de um carro de Ralis, ao que lhe respondi que não. 

Os momentos que se seguiram foram fenomenais, para fruir cada metro percorrido. 

O José Pedro Fontes, lá «em cima», sentado bem mais alto que eu, ia-me explicando, pelos intercomunicadores, que travava com o pé esquerdo, a forma como engrenava as mudanças, o local onde estava o travão de mão, referindo-me para eu «relaxar», pois não haveria problema algum. 

Durante o trajeto, à minha frente, no asfalto, eram perfeitamente visíveis as muitas marcas de pneu das passagens anteriores, bem como a terra e pó que o carro havia trazido para a estrada nas curvas «queimadas» por dentro. 

O José Pedro ia aproveitando toda a largura da estrada, sensação também muito diferente daquilo que é conduzirmos os nossos carros do dia-a-dia em estrada aberta. 

Assim fizemos o trajeto até à povoação de Pera. 

Percebia-se que não havia sido muito brutal nem excessivamente rápido.

Creio que havia procurado aquecer pneus e motor. 

Tínhamos descido «depressinha», mas já se adivinhava que o que viria a seguir só podia ser algo de verdadeiramente arrebatador... 

Eu ia absorvendo, sem pensar em nada de concreto, todas aquelas sensações... 

Fim da descida, carro a dar meia volta e preparávamo-nos para regressar à assistência... 

5) A SUBIDA: 

Carro virado para cima. 

Zé Pedro parado, acelerador com as rotações em alta, e de imediato «disparo brutal» com o carro a tragar metros a ritmo impressionante. 

O motor ronca agora maravilhosamente. 

A velocidade, sendo infernal, não era o que me ia impressionando. 

Impressionava-me, sim, a forma como o piloto tratava o carro por tu, e como «varria» toda a largura da estrada. 

Nas curvas para a esquerda, a sensação que sempre me deu é que o carro ia bater invariavelmente nos morros de terra do lado de dentro, dadas as «tangentes» que o Zé Pedro lhes infligia, bem como nos rails que estavam ali mesmo do meu lado.

Numa sequência de «esses rápidos», abordados a alta velocidade, deu para perceber o nível incrível de aderência que o carro tem, não «fugindo» um milímetro. 

Nas travagens mais fortes, para curvas mais fechadas, o Zé Pedro travava incrivelmente tarde, dava um mero golpe incisivo no travão [forte mais não muito prolongado], reduz velocidades a um ritmo elevadíssimo, insere o carro na curva e antecipa a sobreviragem contrabrecando com um golpe único de volante e, helás, a máquina fica apontada para a saída da curva, feita em aceleração total: um autêntico regalo de condução. 

Fiquei embasbacado com a destreza, reflexos, e coordenação motora que são necessários para fazer um trajeto deste género, sem retas, cheio de encadeados de curvas, onde não há a menor margem para hesitações. 

Não existe, como nos autódromos, margem para descanso, pois o piloto está sempre a reduzir e a aumentar as passagens de caixa, a virar, a travar. 

A cadência que é preciso para o fazer é impressionante, percebendo-se também a importância do entrosamento com as notas ditadas pelo navegador, pois não existe, como referi, margem para hesitações ou enganos. 

Lá fomos subindo a um ritmo alucinante. 

Curva, contracurva, tragadas de forma muito rápida, alucinantemente rápida... 

Pensei que um carro com as especificações de asfalto era algo «duro» para o físico dos ocupantes, mas o «Grande Punto» primou por enorme amistosidade para comigo, revelando-se surpreendentemente confortável. 

Os quilómetros desta minha «especial» foram tragados num ápice, traduzidos num vórtice de excelentes sensações. 

A confiança que se sente no carro e piloto [que inequivocamente nos faz sentir que sabe perfeitamente o que está a fazer...] deixa-nos relaxados para absorver tudo à nossa volta, sem quaisquer medos nem receios. 

Soberbo! 

Lá chegamos de novo à assistência onde, pelos intercomunicadores, tive oportunidade de agradecer ao José Pedro a experiência proporcionada, desejando-lhe genuinamente uma vitória à geral até ao final da temporada [viria a consegui-lo na última prova da época, o «Rali Casinos do Algarve», n.d.r.].

Pensei com os meus botões que, por minha vontade, dali não sairia até ao final do dia; ou melhor, até ao final do campeonato. 

O José Pedro havia acabado de dar expressão ao velho axioma segundo o qual «os verdadeiros pilotos não é nas pistas que se veem; é nas estradas»... 

6) EPÍLOGO: 

O meu respeito pelos pilotos de Rali e respetivos navegadores, que já era enorme, aumentou exponencialmente desde a passada segunda-feira. 

Queria publicamente prestar a minha homenagem a todos os elementos da equipa «Sports & You» pela simpatia com que me acolheram. 

Ao José Pedro Fontes, a minha gratidão total e sem reservas encontra-se descrita pelo que fui referindo ao longo do presente tópico. 

Ao Miguel Lacerda, um agradecimento do tamanho do mundo pela prova enorme de amizade que seguramente vou guardar para sempre!!!...

Abraço a todos.

O 'copiloto'... 

Nuno Lorvão".


JOSÉ PEDRO FONTES/FERNANDO PRATA [Renault Clio S1600 - 
Rali «Centro de Portugal», 2006, classificativa «Alcobaça 1», 13,76 kms]:

JOSÉ PEDRO FONTES/FERNANDO PRATA [Renault Clio S1600 - 
Rali «Centro de Portugal», 2006, classificativa «Alcobaça 2», 13,76 kms]:

JOSÉ PEDRO FONTES/ANTÓNIO COSTA [Aston Martin DBR S9 - 
Rali «Centro de Portugal», 2009, classificativa «Marinha Grande 1», 7,50 kms]:

JOSÉ PEDRO FONTES/ANTÓNIO COSTA [Aston Martin DBR S9 - 
Rali «Centro de Portugal», 2009, classificativa «São Pedro 1», 7,90 kms]:

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