P.E.C. Nº 409: Lições de dignidade a partir da cidade-berço...





Está escrita a história do Campeonato Nacional de Ralis alusivo à época desportiva de 2017. 

Num tributo à resiliência e determinação, Carlos Vieiraassessorado por Jorge Carvalho – conquistou o cetro máximo reservado à classificação de pilotos. 

há muito tempo havíamos fornecido neste blogue algumas pistas para descodificar o talento superlativo do bracarense. 

Materializaram-se agora, sem surpresa de maior – pelo menos para nós… -, as promessas deixadas por Vieira nas três últimas temporadas, feitas à base de rapidez inata, perceção das particularidades dos Ralis e apuradíssimo grau de adaptação à realidade da modalidade, além da humildade – embora com espírito altamente competitivo - na abordagem às provas de estrada como o melhor princípio para as aprender e interpretar. 

De facto, credite-se-lhe o mérito por completo, o piloto do Citroen DS3 R5 com o n.º 27 inscrito nas portas aprendeu bastante depressa. 

Em menos de três anos após ter realizado o primeiro Rali – do qual por sinal até saiu premonitoriamente vencedor -, neste seu percurso dentro da modalidade encontram-se vitórias em provas de asfalto e terra – fatores abonatórios da versatilidade do novel campeão nacional –, crescente consistência de resultados mesmo debaixo de pressão, e, agora, um título absoluto de Ralis a ornamentar a respetiva sala de troféus. 

É muito. 

Sobretudo “muito” conseguido em muito… pouco tempo! 

Num passando recente e escrevendo de memória, só nos ocorre Armindo Araújo como exemplo similar de precocidade entre a chegada à modalidade e a conquista do primeiro cetro de campeão nacional de condutores. 

Carlos Vieira é o justo e meritório campeão nacional de Ralis na temporada de 2017, mas o cetro foi arrebatado numa espécie de foto-finish-em-cima-da-linha-de-meta, se considerarmos ter suplantado o seu rival mais direto por escassos 0,46 pontos nas contas finais da competição. 

Esses tais 0,46 pontos são exatamente o quê? 

Bom, são algo de semelhante a uma vitória numa classificativa das provas do nacional da modalidade. 

E uma vitória em troços pode justificar-se como? 

Em Ralis nos últimos anos disputados ao décimo de segundo após centenas de quilómetros cronometrados, ser o mais veloz numa classificativa pode, por exemplo, depender de cinco centímetros a mais ou menos no corte de uma curva, ou de uma atravessadela com cinco centímetros além do ângulo ideal de uma trajetória. 

Ou seja: na prática, nada! 

Entramos aqui, por conseguinte, noutro aspeto da nossa análise a parecer-nos revestir importância: a enorme dignidade de Pedro Meireles e Mário Castro na assunção da derrotauma palavra forçada e inadequada ao contexto, talvez a dever ser substituída pela expressão “não vitória” – cessadas as hostilidades do CNR/2017. 

Do ponto de vista pessoal não temos a visão do desporto como devendo ser uma glorificação exacerbada a quem triunfa, nem em contraponto advogamos uma fustigação impiedosa a quem se vê apanhado pelas malhas do desaire. 

Nunca nos embevecemos pelo “no time for losers” em tempos cantado por Mercury e musicado pelos Queen

Nos Ralis deve sempre haver “tempo” para todos, sobretudo para quem se insere na modalidade através da integridade e do saber-estar. 

Nesta linha de raciocínio, as declarações de Pedro Meireles no rescaldo do Rali Casinos do Algarve - ler aqui - foram muito importantes. 

Revelaram grande elevação e honradez por parte do vimaranense campeão nacional em 2014. 

Caráter, se o caro leitor preferir. 

Quando se podia escudar em sofismas como um mau setup de afinação do carro, uma qualquer súbita e estranha falta de potência do motor, ou pneus a demorarem a entrar na temperatura ideal, Meireles, conferindo um cunho profundamente humano à sua prestação menos conseguida nesta reta final de campeonato – nas últimas cinco temporadas, em algumas ocasiões perdendo e noutras ganhando, tem estado invariavelmente na liça pelas melhores posições em cada prova e em cada campeonato nacional – reconheceu, de forma assaz simples, não ter estado ao nível do seu contendor direto, admitindo até ter-se deixado desmotivar quando de forma visível os ventos da Serra de Monchique foram paulatinamente soprando na direção de Carlos Vieira

Num mundo em sobressalto à procura de heróis, merece-nos profundo respetivo quem publicamente assume de algum modo não ter estado em dado momento tão perfeito como seria suposto estar. 

Tiramos sempre o chapéu a quem, como Pedro Meireles, de forma desdramatizada revelou a sua condição de falibilidade. 

A rodar a alta velocidade entre árvores, rochas, ou precipícios, todos são, aliás, falíveis – sim, embora o Ogier não pareça… -. 

As palavras de Meireles são na nossa leitura muito relevantes por trazerem para a orla dos Ralis nacionais uma dimensão desencriptada da condição inerente a cada piloto, umas vezes transcendendo-se, outras claudicando. 

E essa mensagem muito – literalmente… - terra-a-terra de quem se senta em máquinas com trezentos cavalos e conduz a duzentos quilómetros por hora em estradas que não lembram ao diabo, pode constituir um bom ponto de partida para a promoção da modalidade, assente na simplicidade dos seus mais destacados participantes, até como antítese das vedetas plastificadas do futebol a pulularem por aí, pelo espaço mediático. 

O sinal forte dos Ralis nacionais a passar para o grande público pode, então, muito bem partir da postura positiva dos seus intérpretes, através do alto sentido de desportivismo e sinceridade de Pedro Meirelese, felizmente, de vários outros pilotos e navegadores afinados pelo mesmo diapasão – ou de imagens com tremendo impacto como, entre outras, a foto do abraço entre Fontes, Ponte, Barros e Henriques cessadas as peripécias do Rali de Mortágua em 2014

Um desporto, em suma, apostado em promover pessoas comuns e não em fabricar vedetas de pacotilha. 

Uma modalidade, para concluir, cujos atores são gente como nós, capaz de momentos de sucesso e infortúnio, de arrebatamento e de desânimo, onde apenas se distinguem do adepto anónimo pela tremenda habilidade a dominar a máquina em quase todas situações, ou pelo suplemento de alma quando fazem um salto de dezenas e dezenas de metros.


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