P.E.C. Nº 428: KRISe? Qual crise?...

A notícia saiu – literalmente… - com estrondo há uns dias: a formação da Citroen dispensou, com efeitos imediatos, os serviços de Kris Meeke

O tempo e a sapiência a ele inerente avaliarão com justeza a pertinência desta decisão. 

Por trás dos fundamentos oficiais dados à estampa publicamente – múltiplos acidentes e alguma inconstância de resultados – haverá, admitimos, outras causas para já não conhecidas a contribuir para esta tomada de posição da equipa gaulesa. 

A pouco tempo de completar trinta e nove primaveras, Meeke tem reduzida margem para reformular a sua carreira dentro do WRC

Numa análise imediata e simplista é fácil olhá-lo como um mero piloto que se notabiliza por amolgar muita chapa. 

Porém, parece-nos claramente redutor avaliar o seu percurso no campeonato do mundo de Ralis apenas à luz das imagens de acidentes que se retém em memória. 

Kris é um piloto diferente. 

Não se trata de um resultadista, capaz de se satisfazer com a acumulação de sucessivas classificações honrosas a meio da tabela. 

É um lutador combativo à procura de transcender o alcance das armas confiadas às suas mãos. 

No seio dos anacrónicos Mini deu nas vistas por operar por vezes alguns pequenos milagres. 

Por via da sua rapidez intrínseca, fez em 2013 o tirocínio para a Citroen onde se manteve até à pretérita edição do Rali de Portugal

A relação do norte-irlandês com a estrutura sedeada em Versalhes teve altos e baixos, mas pautou-se sempre por um clima de alguma tensão latente. 

Nestes anos, em momento algum, interna ou externamente, a equipa sinalizou com clareza ser Meeke o líder de projeto ou ter o estatuto assumido de primeiro piloto à volta do qual toda a estrutura se organiza. 

O britânico dentro da Citroen pareceu ser sempre mais tolerado que verdadeiramente desejado, muito por força da gritante incapacidade dos franceses em atraírem para o seu seio os outros melhores pilotos do WRC

Talvez numa reminiscência da dificuldade histórica de entendimento cultural entre gauleses e súbditos de sua majestade, Kris ao serviço da marca do double chevron foi em quase seis temporadas mais um mal menor que um bem maior

Dando de barato ser o C3 o automóvel menos performante do atual plantel do WRC, a dispensa de Meeke deixa à evidência a dificuldade acrescida dos franceses em doravante,  pelo menos na época desportiva a decorrer, chegarem aos triunfos em classificativas e às vitórias nas provas do campeonato do mundo da modalidade. 

A ironia é esta: à exceção do neófito Teemu Suninen, todos os pilotos de todas as equipas adversárias dos gauleses já triunfaram à geral em eventos do WRC, enquanto nenhum dos recrutas da Citroen – excluímos Ostberg deste desiderato – alguma vez logrou chegar ao lugar mais alto do pódio em Ralis do mundial. 

leituras a extrair deste facto, nomeadamente a aparente resignação da marca francesa em baixar as suas ambições ao mais alto-nível, optando agora por preterir os serviços do piloto em tese melhor preparado para a fazer chegar, mesmo episodicamente, às classificações de relevo. 

Reforçamos a ideia acima escrita: Kris Meeke é, goste-se ou não, um piloto com uma abordagem muito própria aos Ralis. 

O seu jogo é de paradas altas. 

De tudo ou nada. 

Sem meias-tintas. 

Distinto de um Sordo ou – agora - um Latvala, ambos na trajetória descendente das respetivas carreiras dentro do escalão máximo da modalidade e regularmente batidos pelos colegas de equipa, que acumulando créditos na estatística reservada ao total de “Ralis disputados” só em circunstâncias verdadeiramente excecionais voltarão ao lugar mais alto do pódio em eventos do WRC

O piloto da Irlanda do Norte, em contraponto, não obstante os sucessivos despistes e erros de pilotagem acumulados nos últimos anos, sai – para já… - do WRC com uma imagem de piloto inconsistente mas mantendo uma aura intacta de inegável rapidez. 

No seu percurso dentro do WRC até ao último Rali de Portugal talvez possam ser assacados ao britânico dois erros

Nunca ter sabido – ou conseguido – estar na equipa certa, na altura certa. 

E, enquanto piloto da Citroen, em múltiplas ocasiões ter-se mostrado aparentemente mais motivado e empenhado em ganhar que a própria estrutura onde militou entre 2013 e 2018. 

A abrupta dispensa de Meeke, agora em análise, pode obedecer a duas leituras. 

Ou a Citroen pretende cessar a médio prazo o envolvimento no campeonato do mundo de Ralis, prescindindo desde já do seu piloto mais competitivo. 

Ou a aposta dos franceses passa por resgatar Loeb para um programa completo no WRC em 2019, atentos os indicadores deveras encorajadores fornecidos pelo alsaciano no México e na Córsega na presente temporada. 

Para já, na aparente mais-valia para os franceses em se terem livrado, com efeitos imediatos, de um elemento indesejado – já o era, diga-se, bem antes da prova portuguesa do WRC/18 -, o futuro vai clarificar quem sairá realmente a ganhar

Se a Citroen ao afastar-se de um piloto malquistomas o único, à exceção de Sordo na Alemanha em 2013, a conseguir oferecer vitórias à equipa desde a reforma de Sébastien Loeb a tempo inteiro em matéria de mundial de Ralis – e pouco encaixado na filosofia de trabalho dos comandados de - agora - Pierre Budar. 

Se Kris Meeke por involuntariamente ter visto quebrarem-se as amarras que o ligavam à equipa menos competitiva do atual WRC, e dessa forma, encontrando-se livre no mercado, poder ainda fazer um contrato a proporcionar-lhe o regresso à luta pelos melhores tempos em cada troço e pelas melhores classificações finais em etapas do campeonato do mundo de Ralis.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://motorsportart.gallery/product/kris-meeke-001-canvas-wall-art-wrc/

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